Cardus Edição 132, abril 2024

ENTREVISTA por

 António Acciaioli Campos


Clara Macedo Cabral, minha amiga, é uma escritora com vários livros publicados dos quais destaco “Há Raposas no Parque”, “O Inverno das Raposas”, “Lisbon Story”, “O último Rei de Portugal e a Maggs” , “Diário da Bela Vista” e “A Inglesa e o Marialva”.

Vive em Londres e actualmente está empenhada, envolvida e apaixonada na escrita de um novo livro sobre a resistência à ditadura em que o seu avô esteve envolvido durante muitos e longos anos.

A distância entre Londres e a Lisboa não foi um obstáculo para uma conversa que partilhamos.



CLARA MACEDO CABRAL

A escrita para mim é um processo de compreensão do que me rodeia, do que sou. É um mote para investigar e aprender, mas mantendo sempre a noção que podia descer mais fundo, de que apenas afloro a superfície

Como nasceu esta tua paixão pela escrita?

Nasceu comigo. Aos quatro anos e meio já lia e escrevia e os amigos dos meus pais lembram-se de mim pequena em festas de anos encafuada num canto a ler. Depois adolescente nas férias sempre de livro na mão, cheguei a ler 20 livros por verão. Com onze, doze anos comecei a escrever pequenas histórias, um diário, contos para o DN jovem, artigos para o jornal do CUPAV…

Falemos do processo criativo. Quais e como são as fases da criação de um novo livro? Como nasce uma ideia?

Eu escrevo mais não ficção do que ficção porque também me interesso e leio mais não ficção do que ficção. Comecei com crónicas, livros de crónicas, quando cheguei a Londres era o registo ideal para o que descobria e a reflexão que queria fazer. Para compreender uma nova cultura e adaptar-me a ela. Por exemplo quando me tornei mãe, quis compreender de que forma as mães inglesas são diferentes das portuguesas. A escrita para mim é um processo de compreensão do que me rodeia, do que sou. É um mote para investigar e aprender, mas mantendo sempre a noção que podia descer mais fundo, de que apenas afloro a superfície.

Os meus romances chegaram depois das crónicas, a partir de histórias concretas que me entusiasmaram. Tem de haver algo na personagem que me suscite admiração ou me comova. A história de Ginnie Dennistoun que acabou incapacitada numa cadeira de rodas com uma esclerose multipla depois ter vivido os seus anos áureos em Portugal tem esses dois ingredientes: admiração e comoção. A audaciosa, corajosa e anti convencional Ginnie foi viver para Portugal nos anos 60 para se tomar toureira e acabou a viver com o seu mestre. A Ginnie enfrentou questões idênticas às que eu enfrento: quando se abandona o nosso país numa idade formativa ou por longos anos ficamos mais desajustados. Estes continuam a ser gatilhos para a minha escrita: as travessias culturais, alcançamos ou não uma maior elasticidade no final? Libertamo-nos dos estribilhos da pertença a uma única cultura e passamos e ver, sentir e pensar de outras formas?

Do que sei, o teu próximo livro, que aguardo com muita expectativa, contará a história do teu avô que foi perseguido e preso pela PIDE. Não receias que muitos dos teus leitores e admiradores do livro “A Inglesa e o Marialva” fiquem desiludidos por se depararem com uma outra realidade que existiu antes do 25 de Abril?

Isso pode acontecer. Mas eu não escrevo para agradar. A realidade é complexa, não estou disposta a não explorar os seus recantos mais obscuros para não desfear o retrato final. Conhecer não assusta, pelo contrário, liberta-nos dos nossos medos mais profundos. A realidade de antes do 25 de abril que a Ginnie conheceu foi uma, mas ela também conheceu a outra face desse Portugal, que ela bem relata nas suas cartas, ela teve contacto com a pobreza extrema do mundo agrícola e rural, a falta de estradas, cuidados de saúde, e saneamento, o analfabetismo, os homens que viviam na estrebaria com os animais.

Se eu fugisse de assuntos polémicos não me tinha aventurado a escrever “A Inglesa e o Marialva” num tempo em que as touradas estavam tão por baixo, e ressalve-se não sendo eu de todo uma aficcionada e tendo conhecimentos nulos na área. Parti do zero. O meu objectivo foi ser o mais possível fiel à história.

Continuo a sentir-me completamente livre para abordar e tratar qualquer tema, só assim vale a pena escrever. Agora a história do meu avô foi claro mais pessoal, mais difícil, impregnada de emoções mais fortes. Tive novamente de fazer um trabalho de casa gigante. Obrigou-me a estudar os 48 anos de oposição política a Salazar. E eu não tinha memória do antigo regime. A outra dificuldade foi terem já morrido todos os seus conterrâneos e eu chegar um pouco tarde de mais. E eu emergi dessa história a pensar: como foram e são sempre poucos os que têm coragem para se opor e para o dizer. Como lhes devemos. Eu sei que isto está estafado, foi tanta vezes dito. Mas eu tenho agora mais noção de que a liberdade política de que gozamos, este intervalo breve de música, de alegria, é frágil, à espreita estão sempre forças para o derrubar e reduzir o ser humano à opressão política. E de que sem a liberdade não podemos usufruir as demais alegrias da vida: elas brotam dessa fundamental premissa, que é podermos livremente elegermos quem nos governa e nessa liberdade cabe a de expressão.

Para a concepção deste teu novo livro, como de outros, valorizas muito a investigação. Imaginando que muita da informação sobre o teu avô está em Portugal… como é possível realizar esta tarefa estando a viver em Londres?

Faço muitas entrevistas por telefone e quando aí vou aproveito sempre para fazer mais entrevistas e ir aos locais. A viagem, o conhecimento dos lugares é fundamental. Para este último livro por exemplo fui três vezes a Trás os Montes. Depois compro os livros em Portugal e trago-os para Londres para os ler. E a Bristish Library tem muitos bons livros que posso consultar, infelizmente está há meses com o sistema informático em baixo devido a um ciber ataque.

Lamentavelmente os portugueses leem pouco. Que devem os escritores fazer para promover o prazer da leitura?

Não são os portugueses que lêem pouco. O mundo inteiro conspira contra um bom leitor e uma leitura gratificante sem interrupções.

No entanto, eu tive sessões muito gratificantes em escolas, em bibliotecas com pessoas de todas as idades, desde alunos da escola primária e secundária até adultos portugueses e ingleses que aqui em Inglaterra aprendem a língua e a literatura portuguesas.

É dos momentos bons da vida de escritor, conhecer os leitores, quebrar a solidão em que vivemos. Não sei o que podem os escritores fazer mais, mas sei que pelo simples facto de se disporem a ir, a falar, estimulam a leitura e o seu prazer.

 

Resta-me agradecer a disponibilidade da Clara em conceder esta entrevista e ficamos a aguardar a publicação do seu novo livro.