Cardus Edição 139, novembro 2024
É preciso uma aldeia inteira para se educar uma criança
provérbio africano
Conheci a Margarida Pedrosa quando os nossos filhos andavam na Escola Básica do Lumiar. O primeiro de muitos desafios que trilhámos juntas aconteceu no início de ano letivo 2013/2014 quando os nossos rapazes chegaram ao 1.º ciclo. A Margarida é engenheira do ambiente e desenvolvia a sua atividade profissional numa multinacional nas áreas da segurança e saúde no trabalho e da responsabilidade ambiental das empresas. A proposta que ela apresentou à Associação de Pais na nossa escola, foi de criar dinâmicas em todas as turmas até ao 4.º ano sobre prevenção de risco em caso de sismo e tsunami. Constituiu o núcleo duro de pais e mães que idealizou conteúdos (desde simulações de terremoto a letras de canções, de quizzes a um tabuleiro de tamanho humano do Jogo da Glória) e dinamizou essas sessões. Esta oportunidade de participação ativa da comunidade em contexto escolar revelou-se uma experiência gratificante para todos: professores, auxiliares, pais e filhos. Se a Margarida já tinha esse “bichinho” de querer trabalhar com crianças, acredito que estas interações terão contribuído para o “salto de fé” que deu anos mais tarde. Largou o seu emprego seguro e, depois de muita formação em metodologias diferenciadas como a pedagogia Waldorf e o modelo Forest School, fundou a Associação Escola da Floresta, em 2017. Vamos procurar perceber melhor essas novas abordagens cada vez mais procuradas pelas famílias portuguesas.
Constituição da República Portuguesa
Artigo 74º
(Ensino)
[…]
f) Inserir as escolas nas comunidades que servem e estabelecer a interligação do ensino e das atividades económicas, sociais e culturais;
A Escola da Floresta – Entrevista a Margarida Pedrosa
O Dia Mundial do Professor celebra-se em todo o mundo a 5 de outubro. Até 2030 estima-se que faltem 34.500 novos professores. Trata-se de uma classe envelhecida que vai perder um número considerável de profissionais até ao fim da década. Simultaneamente, deixou de ser uma profissão atrativa. No entanto, a educação é um fator determinante para a igualdade oportunidades e fundamental para o funcionamento do elevador social. Como podemos pensar de forma inovadora na atração e capacitação de profissionais para o ensino? O Projeto Europeu NEWTT – New Way for New Talents in Teaching, financiado pelo ERASMUS, propôs-se testar durante 2 anos o modelo da rede internacional Teach For All em 5 países da União Europeia – atrair profissionais de várias áreas para o ensino através de vias alternativas. Este estudo europeu concluiu que os profissionais de vias alternativas estavam tão preparados como os professores com formação tradicional antes de entrarem nas salas de aula. Este modelo está a ser testado pela Teach For Portugal num projeto-piloto que envolve escolas públicas, o que é indiciador de que se procuram novas respostas para o nosso sistema de ensino Veja aqui o vídeo sobre o Projeto Europeu NEWTT – New Way for New Talents in Teaching.
Fomos ver no terreno o trabalho da Associação Escola da Floresta que celebrou nos dias 26 e 27 de outubro 7 anos de existência, e cuja missão é levar esta nova forma de ensinar a todas as crianças em Portugal. O ritmo da sua implementação tem sido mais lento do que o desejado, num País em que os processos de mudança são tantas vezes ultrapassados pela realidade.
Margarida, fala-nos sobre esta metodologia desenvolvida pela Forest School. Como e onde surgiu para responder a que anseios de pais e educadores? Já é um tipo de resposta aceite em sistemas de educação noutros países do Mundo?
A prática de uma educação próxima da natureza, íntima mesmo, já é praticada nos países escandinavos há várias décadas. Por volta de 1990, um grupo de educadores ingleses visitou algumas dessas instituições e levou para casa as ideias-chave e muita inspiração a que, depois de adaptarem e sistematizarem, batizaram de Forest School. A necessidade de desenvolver esta abordagem deveu-se ao evento de distanciamento das pessoas à natureza que se fazia sentir, em muito devido à Revolução Industrial e consequente concentração da população nas grandes cidades.
Os seus programas são baseados em 6 princípios: são programas de longo prazo, que se desenvolvem em meio arborizado, promovem o desenvolvimento holístico de todos os envolvidos, enquadram riscos apropriados, são promovidos por pessoas qualificadas e utilizam processos de aprendizagem centrados na criança e na sua curiosidade.
É necessário diferenciar duas vertentes da abordagem: até aos 6/7 anos e uma vez que a escolarização não é obrigatória, podemos falar de uma ocupação diária na natureza e a designação mais apropriada é Forest kindergaten. A partir do 1.º ano de escolaridade, é mais comum falar-se de programas de Forest School, com uma cadência semanal, como tal, as crianças beneficiam de uma sessão semanal de cerca de 2 horas na natureza, sendo acompanhadas por profissionais de FS.
No Norte da Europa os Forest kindergaten são uma realidade instalada, porém em Portugal, o enquadramento legal ainda não é flexível para albergar estes projetos. Foram vários os projetos pioneiros: decorreram em Aveiro e em Sintra, seguidos de outros que acontecem nos municípios de Mafra, Lisboa e Ovar. Quanto aos programas de Forest School, estes são já desenvolvidos em alguns estabelecimentos de ensino particular, enquanto que no ensino público, maioria das vezes, são os Municípios os promotores, porém empurrando as sessões para fora do horário letivo.
Numa altura em que tanto se fala em defesa do meio ambiente e sustentabilidade do planeta, consideras que este tipo de metodologias é uma resposta possível para trazer novos ventos à escola? Quais as vantagens para as crianças, as famílias e, em ultima instância, para a sociedade como um todo? Notaste uma maior procura depois do período de pandemia da COVID-19?
Absolutamente, eu revejo nesta metodologia a complementaridade necessária e essencial para o desenvolvimento de uma consciência de que somos Natureza, em primeiro lugar, e de que precisamos de respeitar e cuidar, tendo em vista a nossa própria sobrevivência.
As vantagens estão amplamente investigadas e descritas, mesmo em artigos científicos. Empiricamente tive a oportunidade de testemunhar os efeitos de um programa de Escola da Floresta implementado ao longo de um ano numa escola básica, que abrangeu alunos do primeiro ao quarto ano de escolaridade. No final do mesmo, as famílias e os professores fizeram o possível para manter o programa ativo relatando os benefícios nas mais diversas vertentes, tais como melhora da saúde (menos faltas por doença), melhoria da relação escola-família, aumento da atenção e da produtividade nas aprendizagens que transitaram para o contexto de sala de aula, entre outras,... O grande salto de consciência deve-se ao período pandémico e pós, uma vez que os pais sentiram na pele os benefícios do ar livre e os efeitos na saúde e alegria das suas crianças.
Num mundo em transformação vertiginosa, quer digital quer climática, como explicas a resistência à mudança na área de educação básica e secundária? Que dificuldades sentiste ou estás a sentir na afirmação de novas formas de aprender e ensinar?
Advogo uma Escola da Floresta em cada jardim e para todas as crianças até aos 12 anos, pelo menos. “A Infância é um chão que se pisa a vida toda” (Bárbara Guimarães, autora brasileira) e, como tal, é nela que se deve apostar para uma mudança de fundo da sociedade, uma mudança de comportamentos e de atitudes em consciência. A Natureza dá-nos ferramentas de bem-estar, promove o sentimento de pertença e aumenta a autoestima, possibilita o movimento físico livre, encerra infinitas possibilidades de criar com os elementos naturais. São a mais eficaz metodologia de aprendizagem pois possibilita a apreensão do mundo através da estimulação de todos os sentidos corporais.
As dificuldades para o amplo desenvolvimento desta abordagem prendem-se com a visão do ensino em Portugal, ainda muito antiquada. Com efeito, preza-se demasiado a aquisição de conhecimentos teóricos em detrimento do desenvolvimento das competências socio emocionais que advêm de uma vertente prática, de mãos na massa. Preza-se a utilização dos meios audiovisuais sem promover o correspondente equilíbrio com todos os outros sentidos não implicados.
Parabéns! A Associação Escola da Floresta celebra o seu 7.º Aniversário o que demonstra persistência e resiliência. Fala-nos das atividades que já desenvolvem e o que têm planificado para o futuro?
A Associação desenvolve as suas atividades tendo por base 3 pilares: formar, cooperar e disseminar. Organizamos formação de Líderes de Escola da Floresta segundo a metodologia definida pelo Reino Unido, mas também formação em primeiros socorros pediátricos, outdoor e outras formações complementares. Este ano vamos apostar no mapeamento de líderes de escola da floresta e de projetos. Por outro lado, vamos continuar a dar a conhecer esta abordagem à comunidade através de eventos demonstrativos.
Saber mais:
A πΎππππ° π΄ππ²πΎπ»π° - Série de programas emitidos na RTP em 2023 (#outraescola#vendesefilmes #rtp2);
A Escola da Floresta (RTP) - ao minuto 25:22, com a participação da entrevistada;
Momento musical: Luís Severo – Escola.
Ana B. Suspiro