Cardus Edição 138, outubro 2024
Agenda 2030 – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)
ODS 5
Alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e raparigas. Acabar com todas as formas de discriminação contra todas as mulheres e meninas em todos os lugares. Eliminar todas as formas de violência contra todas as mulheres e meninas nas esferas pública e privada, incluindo tráfico, exploração sexual e outros tipos. Garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades de liderança.
A VOLUNTÁRIA INÊS MOURÃO
Eu não conhecia a Inês, mas foi graças a ela que tive esta vivência. Foi uma amiga comum, a Fanny, que sugeriu que escrevesse sobre a sua experiência de voluntariado em Marraquexe. Por coincidência, partia poucos dias depois para esse destino de férias. Já ia expectante, mas fiquei ainda mais entusiasmada com a ideia de mergulhar na realidade de uma ONG que trabalha o empoderamento de adolescentes e no combate ao casamento forçado. Entrei em contacto com a Inês, que agilizou a minha visita à sede e a um dos muitos polos espalhados pelo país. A Inês fez voluntariado na «Project Soar» durante uns tempos como designer. Conforme ela conta “depois da viagem há muito desejada a Marrocos em julho do ano passado, onde conheci pessoas incríveis que me proporcionaram alguns dos melhores momentos da minha vida, sucedeu a tragédia do terramoto de setembro de 2023 que dizimou aldeias e vilas inteiras”. Ativista de coração e ligada aos muitos amigos em dificuldades que deixou para trás, angariou perto de 2000,00€ para ajudá-los e, numa decisão impulsiva, procurou uma ONG em Marraquexe para poder voltar. “Project Soar” foi das primeiras a surgir e o facto de trabalhar com questões do feminino acordou o “bichinho” sobre os desafios da igualdade de género, que também sentiu na pele, como recorda: “quando me dediquei ao hip-hop, um meio musical bastante machista e anti mulheres”. Em Portugal, a Inês geriu uma exposição-fundraiser chamado Nasty Women Portugal, também relacionado com direito das mulheres. Mais recentemente, começou a tirar um novo mestrado em Ação Humanitária, na SOAS London, pelo que o seu percurso deverá continuar ligado ao ativismo em Direitos Humanos. Uma coisa é certa: a Inês deixou saudades na «Project Soar», onde a sua fotografia continua em vários expositores junto das restantes colaboradoras e todas as ex-companheiras a recordam com muito carinho, bem como às iniciativas em que esteve envolvida: uma das mais emblemáticas o Kit Menstrual, distribuído a mais de 36 mil adolescentes desde 2021.
SOU FORTE! SOU INTELIGENTE! SOU CAPAZ! SOU LÍDER! SOU FEMINISTA!
Estas palavras de ordem constituem o ADN da ONG “Project Soar” e espelham o programa de capacitação de cinco módulos que visa ajudar as jovens a tomar consciência do seu VALOR, da sua VOZ, do seu CORPO, dos seus DIREITOS e do RUMO que pretendem dar à sua vida. «Soar» é uma palavra inglesa (todo o programa é em inglês) que quer dizer “ganhar asas”. Com este programa de empoderamento de meninas adolescentes entre os 12 e os 18 anos pretende-se que se transformem em Líderes de hoje e de amanhã. «Project Soar» é uma organização não governamental (ONG), criada em 2015, em Marrocos (Marraquexe) onde tem a sua sede, mas que já está representada no Uganda, desde 2019, na Síria, desde 2021 e prevê instalar-se este ano também no Líbano. “Hoje continua a crescer”, referiu Kellie Quinn, a responsável com quem conversei no dia em que fomos visitar a sede na zona nova da cidade. Os impactos do programa são impressionantes: 99,5% das “Soar Girls” evitaram o casamento infantil (face aos 86% a nível nacional), 97,6% transitaram de ano letivo (comparado com 85,1% de estudantes a nível nacional) e 100 % concluíram o ensino secundário e prosseguem os seus estudos universitários (face aos 55% de estudantes a nível nacional e aos 39,1% de estudantes do sexo feminino, respetivamente). Neste momento, o projeto beneficiou mais de 5760 meninas, formou 397 facilitadoras, tem 54 “Soar Clubs” ativos, está presente em 138 localidades por todo o País, realizou 9510 workshops, promoveu 167 Diálogos, e envolveu 1283 membros de comunidades.
À CONVERSA COM AS ADOLESCENTES DO CENTRO DE DOUAR LADAM (a 20’ de Marraquexe)
Meriam começou por ser beneficiária do projeto quando ainda tinha 12 anos e hoje é coordenadora de programa. Um percurso que outras beneficiárias também seguiram ou pretendem seguir. A fundadora do projeto, Maryam Montague, de mãe iraniana e pai americano, desenvolveu este programa de 25 workshop para empoderar raparigas adolescentes em Marrocos. Como funciona? No inicio dos anos letivos são distribuídos flyers pelas escolas e colocados posters em locais públicos. Na comunicação com potenciais candidatas são privilegiadas as redes sociais, como o Instagram e o Facebook, muito difundidas entre adolescentes. Cerca de 25 adolescentes são acompanhadas por duas facilitadoras locais. As facilitadoras beneficiaram de formação prévia e dispõem do que chamaram “Soar in a Box” com todos os materiais necessários para a dinamização dos workshops nas suas comunidades. A formação de empoderamento das meninas integra 5 módulos dedicados: I-Valor II-Voz III-Corpo IV-Direitos e V-Percurso, em que vão trabalhar a autoconfiança, competências em liderança e sobre dos seus direitos. Aqui a negociação é muito importante, insiste Meriam. Após o programa os «Soar Clubes» são um espaço para a prática dessas competências de liderança e permite manter a rede ativa bem como a ligação à comunidade. O trabalho com as comunidade através de «Soar Dialogues» também é muito importante, designadamente com as famílias, por forma a melhorar a comunicação e ir desconstruindo algumas crenças e tradições enraizadas. Os testemunhos que ouvimos das adolescentes do Centro de Douar Ladam permitiu-nos perceber o quanto beneficiaram do programa e o quanto cresceram e se transformaram e às suas famílias. Quase todas mencionaram a sua timidez e falta de confiança iniciais e o quão importante foi para elas encontrar esse local seguro para partilha e autoconhecimento.
«BIGGER MOVEMENT» NO COMBATE AOS CASAMENTOS FORÇADOS
Atualmente, quase uma em cada sete meninas se casa menor de idade. Nos últimos 18 anos, a taxa de noivas aumentou drasticamente em Marrocos, provando que o Código de Família não protege adequadamente as meninas desta prática prejudicial. «Project Soar» integra a parceria BIGGER Movement (Building a Greater Girls Rights) que consiste em formar e mobilizar raparigas adolescentes para fazer lobby junto dos decisores políticos e das partes interessadas para promover as alterações ao Código da Família. Através do BIGGER, as raparigas recebem formação em advocacy para dotá-las das competências necessárias para abordar os decisores políticos e atuar como catalisadoras comunitárias de mudança e se mobilizarem contra o casamento infantil. No Centro Douar Ladam, foram partilhadas experiências de exercício de advocacy junto do poder político por algumas da adolescentes, bem como da sua presença em fóruns internacionais para apresentar o caso marroquino, como foi o caso de Soukaina Naciri, Coordenadora Financeira do «Soar Project», recém chegada da Dinamarca.
Podemos ajudar assinando a petição
Sabia que... o casamento infantil ainda ocorre a um ritmo alarmante em Marrocos? Quase uma em cada sete adolescentes marroquinas casa antes da idade legal. O Código da Família Marroquino contém lacunas legais que tornam o casamento infantil possível! É hora de parar com essa prática prejudicial para as meninas! Assine aqui a petição.
No postal desenhado o símbolo de “Mulher Livre” em Tamazight (alfabeto dos povos do deserto) em homenagem a todas as meninas e mulheres marroquinas.
Contactos do projeto SOAR (clique para aceder): www, facebook, instagram
Ana B. Suspiro