Cardus Edição 137, setembro 2024
Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Vinícios de Moraes
É uma casa portuguesa, com certeza
E é, com certeza, uma casa portuguesa
É uma casa portuguesa, com certeza
E é, com certeza, uma casa portuguesa
Amália Rodrigues
Constituição da República Portuguesa
Artigo 65º
(HABITAÇÃO E URBANISMO)
[…]
d) Incentivar e apoiar as iniciativas das comunidades locais e das populações, tendentes a resolver os respetivos problemas habitacionais e a fomentar a criação de cooperativas de habitação e a autoconstrução;
QUEM É A FAMÍLIA MENDES?
Os personagens desta crónica são a Paula e o seu marido Wanderlei Mendes, luso-brasileiros de Florianópolis (Santa Catarina) que, em 2019, decidiram vir instalar-se em Portugal para estar mais perto das filhas. Gabriella e Camilla, ambas a viver no Reino Unido como consultoras de viagens, são comunicadoras natas: uma mais ligada aos media e produção de conteúdos e redes sociais, outra com veia artística. Wanderlei é bisneto de um português, Cândido Mendes, e a Ana Paula filha do madeirense José Gonçalves e de Maria de Lourdes, também ela filha de madeirenses emigrados para o Brasil. José e Maria deram o nome à Quinta. A decisão de regressar a Portugal foi do casal Mendes, mas quem tem a paixão pelas suas raízes é Paula que, desde cedo, regista num caderninho tudo o que vai sabendo sobre os seus antepassados e a história da família. “Ainda vou escrever um livro!”, exclamou ao pequeno almoço, que nos servia carinhosamente todas as manhãs com os melhores produtos desta nova “terra” que já considera sua.
Paula e Wanderlei começaram por passar uma temporada no Algarve por causa do clima e das praias, mas depressa se aperceberam que procuravam algo mais… começaram a explorar zonas do País mais para o interior onde pudessem encontrar uma casa com uma área razoável e um terreno em volta (a preços comportáveis!). Esta casa de 1940 correspondia aos critérios de busca e estava nos Favoritos da Paula desde a primeira hora! Pouco antes da pandemia, Wanderlei deslocou-se a Ferreira do Zêzere e, apesar do mau tempo e da falta de luz elétrica, percebeu o potencial do “Casarão”. Contudo, todo o edificado, propriedade de uma família da região, estava fechada há mais de 15 anos e precisava de uma intervenção profunda: desde o telhado, ao teto, passando por paredes e chão. Foi então que surgiu a ideia da Família Mendes se juntar para tornar o sonho “Quinta José & Maria” uma realidade.
Assim o exigia a escassez e custo da mão-de-obra local, bem como o volume de trabalho que se avizinhava. Nesse momento, firmou-se o pacto familiar de “vestir a camisola” e “pôr as mãos na massa” em homenagem aos seus antepassados portugueses. Começa aqui a história da reconstrução de uma casa portuguesa com 80 anos de muitas Histórias Guardadas que foram Recuperadas e que se transformaram no Lar desta família e num belíssimo Alojamento Local (pousada). Como um casulo que se transforma numa linda borboleta, uma Mariposa. E tudo fizeram com muito amor e com as próprias mãos!
Nesta conta das redes sociais dinamizada pela Gabriella e pela Camilla, pode acompanhar a história do nascimento de um sonho de uma família desde a primeira hora, em que todos dão as mãos e colaboram. Como dizia o nosso poeta Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”
UMA CASA PORTUGUESA, COM CERTEZA!
Não vos acontece chegar a um lugar onde tudo parece familiar e sentirem logo que vai correr tudo bem? Assim foi no Alojamento Local “Quinta José & Maria”, onde pernoitámos três noites. Não sabia se era o verde garrafa das paredes da casa, que me recordava a minha infância e a casa dos meus avós, se alguns dos objetos espalhados pela casa, se a capa daquele livro “Mariposa Brand”. Já perceberam que adoro borboletas! Fui muito feliz numa “Casa Mariposa” e hoje em dia danço todas as terças-feiras no “Espaço Mariposa” com o meu grupo de Biodanza, com quem estive aqui. Há quem diga que são sinais. Mas na verdade o que me encantou foi a história desta família de lutadores que se apaixonou por este lugar e o transformou. A nossa anfitriã, Paula, foi juntando uma peça deste puzzle à hora do pequeno almoço.
OBJETOS COM HISTÓRIA. ANTES E DEPOIS
No início foi muito duro. A casa não estava habitável. O inverno rigoroso e a demora para refazer o sistema elétrico obrigaram o casal e uma das filha a viver num carro adaptado durante três semanas. Depois, foi meter as mãos à obra e reconstituir tetos, chão, paredes, refazer cozinhas e casas de banho. A ideia era manter o mais possível a traça original da casa, com marcas arquitetónicas do início do século XX, em que se distinguem as paredes de pedra, das quais “descascaram à mão” o reboco que a cobria. Um trabalho árduo mas compensador que trouxe alma a cada recanto em que a pedra se mostra. Paula relata que uma senhora da aldeia lhe contou lembra-se de sua mãe a carregar as pedras para o pai as montar e que, de vez em quando, deixava uma moeda entre as pedras para trazer prosperidade. Ainda não encontrou nenhuma, mas esta história recuperada invoca a riqueza dos afetos. Também outras peças foram recuperadas, como o corrimão das escadas, portas, tijoleira do chão e os azulejos, reaproveitando lustres, moveis, ferragens, e até um velho barril encontrado num armazém que se transformou numa mesa de cabeceira, especialmente escolhido para um dos quartos. Cada quarto tem o nome de uma árvore: Camélia, Castanheiro, Eucalipto, Amendoeira, Cerejeira, Laranjeira.
Cada membro da família traz as suas competências, com as filhas Gabriella e Camilla a dar vida ao projeto também através das redes sociais e angariando cada vez mais seguidores que querem acompanhar a par e passo a evolução da obra. Já são 25.200 no Instagram! Essa parte exige um pouco mais do Wanderlei, mais à vontade com o trabalho braçal do que com seu lado criativo. Mas sai-se muito bem ao rebocar paredes ao som dos AC/DC! Esse espaço virtual além da simpatia dos seguidores mais ou menos longínquos (alguns até enviam presentes, que a família carinhosamente coloca nalgum lugar especial: um pano de cozinha bordado, um espanta-espíritos, um prato pintado que se juntou à parede de pratos antigos com que decoraram uma das paredes da sala), trouxe também a oportunidade de patrocínios, com a oferta de material como tintas de um fornecedor local. Esse envolvimento comunitário e proximidade com os vizinhos foi a parte que mais gostei de ouvir contar: como, de repente, também o vizinho da frente veio pedir ajuda para pintar a sua casa; ou como a família Mendes, num ato de solidariedade, juntou a vizinhança e a empresa de tintas para apoiar dois irmãos sem recursos para pintar a fachada de branco e os contornos das janela em tons de azul forte da casa contígua; ou ainda o Sr. Vítor Carvalho criou uma conta instagram com as fontes abandonadas das redondezas, depois de ver a fonte em frente à Quinta José e Maria ganhar nova alma. São redes de vizinhança e afeto que se criam e que se expandem como uma “onda com efeito dominó para o bem” descreve a Paula.
E OS DIREITOS HUMANOS
O que tem a “História Guardada e Recuperada” da Família Mendes a ver com Direitos Humanos e o Direito à Habitação? Algo que a Paula disse a certa altura nas nossas conversas matinais acerca do lugar que encontrou para viver com os seus mais queridos e que me fez lembrar o mural da Avenida de Ceuta, em Lisboa: “Um lugar tão bonito, com tanta casa abandonada e tanta gente sem casa para morar!”
São muitas as petições sobre o Direito à Habitação Pelo direito de todas as pessoas a uma habitação condigna da Amnistia Internacional, Casa para Todos | Petição - Porta a Porta. Todas elas reclamam novas políticas públicas para a habitação. Questiono-me: se incumbe ao Estado “Incentivar e apoiar as iniciativas das comunidades locais e das populações, tendentes a resolver os respetivos problemas habitacionais e a fomentar a criação de cooperativas de habitação e a autoconstrução” por que não criar uma política pública de incentivo aos jovens para se instalarem em zonas do interior, com facilidades no acesso a habitação: um incentivo com acesso a casas e património abandonados para recuperar (algum do próprio Estado) a custos controlados, com acesso a crédito bonificado jovem com uma tripla virtualidade: o povoamento e rejuvenescimento de zonas desertificadas do nosso Interior, o despovoamento dos grandes centros e zonas do litoral do País onde as populações se aglomeram e a recuperação do nosso Património e História.
A Família Mendes é certamente uma inspiração e desejo que muitos possam seguir o seu exemplo de força, união e empatia com a comunidade que os acolheu de braços abertos. Com este seu espírito empreendedor (que tão bem caracteriza os nossos emigrantes que partiram no século XX para outros destinos) as irmãs Gabriella e Camilla vão criando e produzindo novos produtos e conteúdos que partilham com os seus seguidores. Ficam aqui alguns:
Guia faça você mesmo, com informação sobre ferramentas essenciais, dicas de pintura, restauração de móveis, molduras e quadros antigos, entre outros;
Guia Centro de Portugal, em que são identificados os melhores lugares perto da Quinta José & Maria para os hospedes planearem a sua estadia: praias fluviais, as cidades, vilas e aldeias mais(ou menos) próximas, miradouros, praias recomendados.