Cardus Edição 136, agosto 2024

DIREITOS HUMANOS

Ana Suspiro


Por ocasião do Dia Mundial da Terra, celebrado todos os anos a 22 de abril, a ativista pelos Oceanos, Barbara Veiga, também jornalista, fotógrafa, artista performativa, palestrante … entre muitos outros papéis que desempenha, inaugurou em Lisboa a sua exposição de fotografia “Kind of Blue". É uma coletânea de sete obras em grande formato com registos de belezas naturais desde regiões inóspitas e a biodiversidade no fundo do mar.

De entre todas as formas de expressão e competências de que dispõe para manifestar o seu amor e esse “dever de defender e ambiente e a qualidade de vida” é através da Arte que consegue fazer confluir todas as vivências e experiências sentidas na primeira pessoa: fosse a bordo do Greenpeace, onde iniciou o seu trabalho na Amazônia para a proteção da floresta tropical em solidariedade com os povos indígenas, seguido das campanhas de pesca ilegal no Mediterrâneo e de proteção às baleias no Caribe; fosse na ONG Sea Shepherd, onde trabalhou por dois anos na campanha da Antártida na defesa das baleias; ou ainda no Amazon Watch, numa campanha sobre combustíveis fósseis. Viu coisas tão chocantes como ilhas de lixo com sofás a flutuar no meio do oceano ou uma tartaruga ao largo da ilha de Chipre, enleada num saco de arroz industrial, que a sua equipa ajudou a resgatar. Bárbara é brasileira, do Rio de Janeiro e, por agora, atracou em Lisboa em águas mais tranquilas do que o Golfo da Somália, em que foi abordada no seu veleiro por “piratas do Mar” que apenas queriam pedir ajuda. Fomos encontrá-la no Maria Food Hub, nos Anjos, onde podemos admirar as suas obras até ao fim do mês de novembro.

A ARTE AO SERVIÇO DE UMA CAUSA MAIOR

Ativismo pelos Oceanos – Entrevista a Bárbara Veiga

“A MELHOR FORMA DE APRENDER É ENSINAR” - William Glasser

Constituição da República Portuguesa

Artigo 13º

(Ambiente e qualidade de vida)

  1. Todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado e o dever de o defender.
  2. Para assegurar o direito ao ambiente, no quadro de um desenvolvimento sustentável, incumbe ao Estado, por meio de organismos próprios e com o envolvimento e a participação dos cidadãos:

[…]

g) Promover a educação ambiental e o respeito pelos valores do ambiente;

Fala-nos da exposição “Kind of Blue” e da bela peça de abertura que se encontra logo na entrada deste espaço eclético? 

A exposição “Kind of Blue” sinaliza o Dia Mundial da Terra e o seu nome é inspirado num álbum de Miles Davis de que gosto muito. Sou apaixonada por jazz. Reúne uma compilação de imagens que atravessam os oceanos Atlântico e Índico e o Mar Mediterrâneo. Esta primeira peça resulta de um experiência vivida nos Açores, na Ilha Terceira, onde fiz uma residência artística em cinema e fotografia. Descobri esta comunidade de mulheres pesqueiras. Achei interessante, depois de estar embarcada sete anos no mar num universo eminentemente masculino, encontrar estas mulheres em grupos a pescar e a conversar. Esta ilha do arquipélago foi a que mais mexeu comigo, no sentido de criar uma oportunidade de conexão com este mundo masculino, mas que também tem feminino. As redes e as suas  tonalidades rosa, lilás e roxo simbolizam esta comunidade de mulheres, a sua interconexão com a vida comunitária e a forma de se ligarem de forma sustentável à Natureza e ao Mar.

Essa ligação que tens ao mundo feminino manifesta-se noutros movimentos e projetos em que estiveste envolvida?

Sim, sou cofundadora do movimento “Liga das Mulheres pelo Oceano” a que estive ligada durante alguns anos, e que chegou a agregar 2500 mulheres. O objetivo foi proporcionar espaços de diálogo, de apoio mútuo e divulgação de artigos científicos de mulheres que estivessem ligadas ao mar de várias regiões do Brasil e do Mundo em diversas profissões: atletas, artistas, cientistas. Também criou essa oportunidade de processos mais criativos e de manifestação inclusiva através da arte. Desenvolvo várias performances artísticas que procuram passar essa mensagem de preservação dos Oceanos e de consciencialização e ação ambiental. De entre elas destacaria a performance idealizada e realizada por mim "Earth Layers", uma representação do oceano e da energia feminina, originalmente enquadrada no Festival de arte Imagi-Nature 2023, nas Maldivas. Nesses processos criativos, além de integrar várias manifestações artísticas como a poesia, o canto, a dança, a fotografia o vídeo, faz apelo às minhas vivências de ligação à Mãe Natureza, através dos seus elementos Fogo, Vento, Terra e Água.

És autora do livro “Sete Anos em Sete Mares”, mares esses também aqui retratado noutras peças tuas de fotografia subaquática.

Sim, neste livro falo um pouco sobre os mais de 80 países por onde passei de barco nessas missões (hoje são mais de 90): pensamentos, reflexões, observação e auto-observação, alguns deles também aqui retratados em fotografia. Por exemplo, os corais do Índico que às vezes parecem joias. Ou estas duas fotografias que constituem um convite para uma meditação ativa sobre o contraponto entre o individuo e o coletivo. Estava no meu veleiro Papaya a ler um livro, vi um cardume de raias e resolvi mergulhar. Fiquei só eu e esta raia. Senti naquele momento uma certa magia, uma cumplicidade no encontro entre os reinos humano e animal. Na outra foto, é outro cardume com muitos peixes, uns mais pequenos outros maiores, que transmitem a ideia de riqueza, abundância, movimento, a força do coletivo, o relacionamento entre espécies diferentes e o respeito umas pelas outras.

É urgente esse reconhecimento e agradecimento da Humanidade aos Oceanos sem os quais não podemos sobreviver. O que pode fazer cada um de nós para os defender?

A ciência apenas conhece 20% do Oceano, mas está preocupada em conhecer outros planetas. Mais de 60% do oxigénio vem do Mar. O mínimo que podemos fazer é repensar os nossos hábitos. Podemos fazer escolhas mais conscientes, começando por olhar para o nosso prato. O que é que eu estou a consumir? De onde vem? Estou a apoiar a economia local ou esta banana teve de atravessar oceanos para chegar a minha casa. Essas escolhas afetam toda a cadeia de distribuição. Por outro lado, pensar no que vestimos. Nós sabemos que a indústria da moda é a segunda mais poluente do mundo a seguir ao petróleo. Que relação temos com estes objetos que nós usamos? E por fim, pensar que o lixo que nós produzimos em excesso é exportado para aterros sanitários para países pobres. É um choque, uma ideia brutal que não passa na imprensa e sobre a qual preferimos não pensar. Na verdade é uma fuga!

O teu trabalho tem envolvido também um público mais jovem, nas escolas por exemplo?

Sim, quando cheguei a Portugal fiz uma parceria com o Centro Cultural de Belém para mais de 30 visitas a escolas, com um projeto de teatro, de storytelling para crianças, com videoarte, bonequinhos…Todas as pessoas devem ser envolvidas, mas quando pensamos no futuro, as crianças dão esperança, dão uma força adicional. Há uma frase de que gosto muito do psiquiatra americano William Glasser: “A Melhor Forma de Aprender é Ensinar” e eu estou sempre nesse processo de aprender e ensinar. A última fotografia da exposição é a de um farol que eu tirei durante a pandemia há quatro anos, precisamente no dia 11 de julho, quando vivia em Londres. Fiz uma caminhada de 11 horas até chegar a este lugar “Seven Sisters Cliff” e, como qualquer navegador que encontra um farol encontra o Norte, eu estava a procura desse novo caminho. Foi Lisboa que me apareceu como novo porto seguro. E aqui estou há quatro anos a apresentar a minha Arte e as minhas reflexões sobre a conexão com a Natureza.

Que bom, Bárbara, teres atracado em Lisboa para te dares a conhecer!

Ana B. Suspiro