Cardus Edição 139, novembro 2024

CONVIDADO

PATRÍCIA ROCHA


Patricia Rocha é diretora-executiva da Fundação Manuel Violante. O projeto mais relevante da Fundação é o MILES cujo objetivo é, a uma cadência anual, dotar as Organizações Sociais de ferramentas que garantam facilidade na gestão, inovação nos modelos de negócio, impacto e sustentabilidade a longo prazo.

Foi nesta fundação que descobri o voluntariado de competências, que me permitiu continuar em atividade, e inclusivamente desenvolver novas capacidades, quando atingi aquela fase da vida em que as pessoas são lançadas (de um dia para o outro) para fora do mercado normal do trabalho.

Colaboro na fundação há cerca de dez anos, pertenço à equipa de mentores que apoia as organizações do programa, já passei por muitas, em todas troquei experiências, formei e fui formado.

Pedi à Patrícia um texto estimulante para quem quer ser voluntário para publicar no jornal e ela, simpática como é, acedeu.

Obrigado “Chefa”.

Edmundo



VOLUNTARIADO



Fazer voluntariado é um ato que ultrapassa qualquer benefício pessoal, indo direto ao coração do que significa ser humano. Quando alguém escolhe doar o seu tempo, o seu talento e o seu carinho, está a oferecer o bem mais precioso que possui: a sua própria presença. Num mundo onde as rotinas são aceleradas e a vida parece um ciclo constante de compromissos, o voluntariado representa uma pausa. É o momento de olhar para o outro e construir uma ponte de empatia e solidariedade.

Ao fazer voluntariado, somos recordados de algo essencial: não estamos sozinhos. Existe um vínculo invisível entre todos que nos liga, independentemente de cultura, religião ou idade. Quando estendemos uma mão amiga, não estamos apenas a ajudar quem está ao nosso lado; estamos também a transformar-nos. Cada sorriso, palavra de agradecimento e olhar de gratidão transforma o voluntário. No MILES, onde voluntários dedicados orientam organizações sociais na superação de desafios de gestão, o impacto é ainda mais profundo. Cada voluntário sente que faz parte de um movimento maior, onde pequenas ações geram mudanças reais e duradouras.

O voluntariado de competências, quando cada voluntário partilha com as organizações as suas competências e capacidades, é uma experiência intensa e desafiadora, mas com recompensas que vão além do que se pode medir. Para os voluntários, cada apoio exige flexibilidade e adaptação, uma vez que trabalhar com diversas organizações sociais, cada uma com a sua cultura, objetivos e recursos pode ser desafiador. No entanto, é justamente essa diversidade que os enriquece. E, acima de tudo, é uma experiência que permite ao voluntário crescer em empatia, em compreensão e em resiliência.

Um dos aspetos mais gratificantes do voluntariado na Fundação Manuel Violante é o impacto direto na sustentabilidade e no crescimento das organizações que são apoiadas em mentoria. Estas organizações beneficiam das competências e do conhecimento dos voluntários, que frequentemente trazem experiências de setores variados, enriquecendo a gestão e a prática diária das organizações sociais. Em troca, os voluntários recebem um sentimento de realização e propósito, ao verem como as suas contribuições ajudam essas organizações a superar barreiras e a construírem um futuro mais forte.

O voluntariado é também um exercício de paciência e de respeito pela autonomia das organizações, onde o papel do voluntário é ser um facilitador. É aprender a guiar e a apoiar, permitindo que cada organização siga o seu próprio caminho, sem nunca perder a sua essência. Essa experiência é, para muitos, uma fonte de inspiração contínua e uma oportunidade de criar conexões profundas, tanto com as pessoas que apoiam como com a comunidade da economia social.

No final, fazer voluntariado é, acima de tudo, um exercício de amor. É amor pela humanidade, pelo próximo e por um futuro onde todos possam viver de forma mais plena e digna. Porque, ao dar um pouco de nós, recebemos muito mais do que poderíamos imaginar. E, no fundo, fazer voluntariado é a arte de transformar o mundo – começando por transformar a nossa própria visão da vida.

Patrícia Rocha