Cardus Edição 138, outubro 2024
Sou Amiga da Maria Manuel Cavaco, Mané para os amigos, há mais de 30 anos desde os tempos de faculdade. É advogada e formadora de deontologia profissional na Ordem dos Advogados. Encara o Direito e o exercício da profissão como entendo que deve ser: de forma independente, aguerrida, e baseada em princípios e valores fundamentais defensores dos Direitos Humanos.
Além de tudo o que nos une (que é muito) temos esta paixão em comum: as Viagens. Foram muitas aquelas que fizemos juntas ao longo desta caminhada: Tunísia, Bahia, Sri Lanka e Maldivas, Paris, Bélgica (a minha segunda Terra), Budapeste, a nossa amada Itália: Cinque Terre, Nápoles, Roma! Este ano Madrid, para não falar em todas as outras no nosso Portugal. Aquelas que não fiz presencialmente acompanhei nos seus relatos, em fotografia e nas longas tertúlias regadas com um bom copo de vinho à volta de uma mesa com amigos. Como esta maravilhosa viagem à Namíbia.
Também a forma de viajar nos aproxima: conhecer as belezas dos lugares, as paisagens, os museus, as culturas, claro! Mas sobretudo conhecer as suas gentes, vivências, origens, aspirações e dificuldades. Também isso é viajar: através das nossas experiências, conhecer melhor o outro e a nós próprios, abrir as nossas cabeças, ser mais tolerantes à diferença.
Ouvimos com frequência este questionamento: se o mais importante é o destino ou o caminho? Para mim, o mais importante, é a companhia, tanto nas viagens como na vida.
Bem-vinda, Mané!
Ana Suspiro
Guardava este sonho dentro de mim: visitar o Deserto da Namíbia. Vira-o há muitos anos em fotografias publicadas numa revista de viagens. Aconteceu ser este o ano da sua realização. Viajei com uma máquina fotográfica nova e sem qualquer leitura antecipada sobre a Namíbia. O desconhecimento dos factos realça sempre os nossos sentidos.
Percorremos a Namíbia, desde o Rio Orange, que separa este país da África do Sul, até à sua capital, Windhoek. Estradas de terra batida, paisagens extasiantes, planícies, que aos olhos são infinitas. O Deserto, finalmente o deserto. Areia fina, dunas imensas, cores que se intensificam ou suavizam com a incidência do sol. O silêncio. O ruído nobre do silêncio. Um local raras vezes por nós visitado, mas que encerra tudo o que precisamos de ter: Paz.
Já mais para Norte, o Parque Etosha, que nos permite o contacto com diversos animais no seu ambiente natural e selvagem: chitas, leoas, girafas, zebras, hienas, elefantes e tantos outros.
Mas nem tudo é beleza na Namíbia. São belas as paisagens, belos os seus animais e belos, diria que muitíssimo belos, os nativos que nos acolhem, simpáticos, asseados, mas de uma pobreza indescritível. Excluo, obviamente, deste quadro, as cidades, nas quais se sediam as sociedades que empregam os nativos que ainda restam e aqueles, que pertencendo a povos invasores, como o povo alemão, prosseguem aí as suas vidas.
A pobreza dos nativos deve-se, obviamente, a razões de ordem natural, nomeadamente a falta de recursos hídricos (passeámos pelos leitos secos de muitos rios), mas também, por todas as razões que nós, ditos civilizados, conhecemos. A Namíbia, que hoje vive da agricultura, do turismo, da indústria de mineração — incluindo a mineração de diamantes, urânio, ouro, prata e metais comuns – e do petróleo, tem recursos naturais valiosos. Como é sabido, historicamente, sempre houve povos, que destemidos, e imbuídos de um espírito de guerra e ambição, dominaram outros povos. A Namíbia não é, de facto uma exceção, de tal sorte que os seus nativos são aqueles que vivem em condições mais miseráveis, enquanto aqueles que descendem dos povos invasores, vivem em condições extraordinárias: boas casas, bons carros, extensas áreas de terra (curiosamente, quase todas as terras visíveis na Namíbia, estão cercadas, o que permite concluir que as mesmas são de privados) e o dinheiro que lhes permite gozar de todos estes prazeres que a Namíbia pode oferecer: a carne, o peixe, as praias, as paisagens, entre tantas outras atrações.
Historicamente, os alemães colonizaram as terras desde Caprivi até o Rio Orange em 1894, colonização que durou até 1915.
Em 1904, os povos Herero e Nama insurgiram-se contra a ocupação alemã e a sua política de constante desapropriação das terras. As forças coloniais alemãs derrubaram esta revolta com uma brutalidade sem precedentes naquele que ficou a ser conhecido como o primeiro genocídio do século XX. 75% da população dos povos Herero e Nama foi dizimada. Após este genocídio, o governo colonial alemão expropriou todas as propriedades e gado dos povos Ova herero e Nama, sem qualquer indemnização. Em 1911, através de um censo oficial alemão foi possível apurar que teria havido uma redução de 80 por cento da população indígena.
Em 1920, após a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, a África do Sul recebeu um mandato da Liga das Nações para administrar o território, que atualmente integra a Namíbia. Em 1946, quando a Liga das Nações é substituída pela Nações Unidas, a África do Sul, já sem mandato para o efeito, portanto, continua a administrar aquele território como se se tratasse de uma província da África do Sul. Em 1948, quando o Partido Nacionalista Conservador chegou ao poder na África do Sul, a política racialmente discriminatória do Apartheid estendeu-se, naturalmente à Namíbia.
A consolidação do Apartheid, a contínua desapropriação de terras aos seus nativos, naturais proprietários, permitiu que um pequeno número de indivíduos fizesse suas as terras e o pastoreio.
O Exército de Libertação Popular da Namíbia (PLAN) - a ala armada da Organização Popular do Sudoeste da África (SWAPO) - lançou um conflito armado de guerrilha a partir de bases na Zâmbia e no sul de Angola, que permitiu, finalmente, que a Namíbia, em 1990, obtivesse a sua independência, após quase um século de ocupação colonial, genocídio e guerra.
A Namíbia é, pois, ainda um país recente, que terá de aprender a defender os interesses dos seus inúmeros povos indígenas e daqueles que, descendentes dos seus colonizadores, acabaram por amar aquele solo e fazê-lo seu. Porém, haverá ( e há, de facto) um longo caminho a percorrer no que diz respeito à justiça na redistribuição das suas terras e da riqueza, em geral.
Entretanto, os nativos, aqueles que são miseravelmente pobres, vivem como sabem. Rasgam sorrisos ao turismo; promovem as suas paisagens, o seu artesanato, as suas tribos. Tudo aquilo que nós, os civilizados, pagamos para ver.
Quanto às suas cicatrizes, quero acreditar, que a imensidão e beleza da paisagem e paz que se respira naquele silêncio, trarão um dia a cura e a justiça a este povo.
A Namíbia foi o solo mais belo que pisei (com exclusão da minha terra, Moçambique).
Maria Manuel Cavaco