Cardus Edição 137, setembro 2024
Maria Inez Gonçalves Marques, Historiadora e Investigadora do IEM (Instituto de Estudos Medievais) da Universidade Nova de Lisboa, é voluntária da SMV, estando ligada ao projeto EscritAfricando.
Apesar da exatidão que a linguagem da investigação histórica exige, Inez não se deixou espartilhar por esse rigor científico e, quase diariamente, surpreende-nos com belíssimas reflexões diárias, escritas com apurada sensibilidade poética e ilustradas com fotografias, pinturas e sugestões musicais.
Para os que a seguem, lê-la todas as manhãs é já um hábito, como rezar uma oração para saudar o novo dia.
Nesta edição, convido-vos a lerem a crónica com que, gentilmente, acedeu a colaborar neste jornal.
Obrigado Inez
Faça chuva ou faça sol, na saída do Metro Baixa-Chiado, do lado oposto à Brasileira, pode ouvir-se, pela manhã, a voz de três ardinas especiais. Dois homens e uma mulher já reformados, de olhar firme e voz bem colocada, apregoam o seu jornal de velha militância:
- Olh’ó avante, sai à quinta o jornal dos trabalhadores, compra o avante!
Não desistiram, nem admitem que isso algum dia possa ocorrer. Ardinas militantes levam-nos a pensar na persistente crença do poder da publicidade, da divulgação das notícias, sem qualquer inibição social ou política.
Numa era em que desapareceram os ardinas, esses corredores de vendas dos seus “papagaios” (assim chamavam eles aos jornais) - em que a comunicação se faz através de redes sociais informatizadas, complementando a televisão -, estes velhos militantes ali estão, conservando uma função ideológica que tem a ideia de serviço abnegado por base.
Há já muito tempo que os ardinas eram, na sua maioria, os “putos”, os “paquetes” que faziam recados para irem comprar jornal e tabaco, no Rossio ou no Chiado. Muitas histórias ouvimos a ardinas de todas as idades que, no passado, faziam estes “biscates” para sobreviverem a uma miséria gritante, num tempo difícil, de forte repressão. Uma vez, o “Manel” descobriu no jornal a fotografia do homem mais generoso a quem costumava fazer os “fretes”. Afinal, os cavalheiros que sempre lhe davam uns bons “cobres”, mais do que o preço do jornal, eram os escritores, os jornalistas que escreviam as notícias. No contar deste antigo “ardina”, o facto de privar assim com eles, tornava-o pessoa importante. Mas também ouvimos contar que estes vendedores de jornais de rua, espécie de almocreves das letras, sabiam de histórias de clientes, de gente que passava. Gostavam de as ouvir e por isso as recontavam, nunca deixando de lhes acrescentar um ponto. Sabiam bem a tendência ideológica dos jornais que vendiam. Faziam, nos seus pregões, uma propaganda velada contra a situação política dominante plasmada nesta tirada muito conhecida na época do Estado Novo: “OLHÓ REPÚBLICA POPULAR CAPITAL LISBOA!”
Dura vida esta dos ardinas que tinham de competir entre si, em tempo recorde, para chegarem primeiro ao posto de distribuição e, a seguir, correr para venderem o maior número possível dos seus “papagaios”.
Longe vai este tempo de gente sofrida que fazia da sua voz o canal de divulgação e venda da informação contida num meio de comunicação em papel, muito importante para quem sabia ler.
Longe vai o tempo em que o proprietário de jornais Bordalo Pinheiro pagava e servia o jantar aos seus ardinas, esses amigos que lhe vendiam a sua “Paródia”.
Longe vai o tempo em que vender jornais, ideologicamente contrários ao regime ditatorial, dava direito a prisão e tortura, impedindo que as três vozes das manhãs de quinta-feira se fizessem ouvir no Chiado.
Deste modo, e porque a liberdade existe, as memórias das vozes dos ardinas da velha Lisboa persistem nos pregões de velhos militantes crentes no seu ideal.
- Olh’ó avante!
Inez Marques