Cardus Edição 136, agosto 2024

CONVIDADO

Manuel Dargent Figueiredo



Manuel Dargent Figueiredo, veterinário de formação, cidadão ativo, é voluntário na associação Ser Mais Valia – Associação de Voluntariado para a Cidadania e Desenvolvimento.

Juntamente com um colega da instituição fez um estudo sobre as vantagens de reforçar o consumo do ovo na alimentação frequente das populações dos PALOP, onde a sua associação coopera no desenvolvimento. Fez o estudo e elaborou um projeto de construção de pequenas unidades para a produção daquele bem alimentar para o qual não encontrou até hoje financiamento apesar de todo o esforço de procura.

Dizem os ingleses, onde existe uma vontade, existe um caminho. É principalmente este caminho de vontade que este espaço digital tem o gosto de divulgar.

Obrigado, Manuel.

Cardus



Ovo, Uma Mais-Valia em África



Um dos grandes objetivos identificados nos ODS 2030 da ONU, prende-se com  a Erradicação da Fome e Promoção da Agricultura Sustentável (ODS nº 2), sendo que este objectivo tem também ligações / implicações e condiciona diversos outros, uma vez que está na base de qualquer necessidade de todos os povos.

Assim sendo procurámos entender as necessidades das populações das regiões de clima árido ou semiárido dos países em desenvolvimento, principalmente naqueles que conhecemos, por lá ter vivido cerca de vinte anos, e depois das recentes viagens de voluntariado aos PALOP, procurámos entender em que medida poderíamos encontrar uma forma de ultrapassar muitos dos constrangimentos e dificuldades que se apresentam nestes países.

De um modo genérico, podemos dizer que a base da alimentação nestes povos, é o recurso aos cereais (milho, sorgo, massambala, arroz, ou tubérculos como a mandioca) e frutos, entre os quais, a banana, a manga, a fruta pão, a nona, são bons exemplos de uma exuberância agrícola que permite mitigar a fome do dia a dia, escondendo as deficiências alimentares, hoje tão bem conhecidas como fundamentais para o desenvolvimento equilibrado na saúde e na educação,  também referidos como fundamentais e a desenvolver até 2030.

A componente proteica nestas populações é constituída fundamentalmente pelo consumo de leite, normalmente conservado através de fermentação por métodos artesanais, feijões e, em ocasiões especiais, com o recurso a alguns animais de que se destacam as aves e, poucas vezes, pequenos ruminantes (ovinos e caprinos). Os suínos em muitos povos é uma espécie interdita. Os bovinos dado que têm um papel sócio económico bem diferente (demonstração de riqueza e estrato social), só são explorados na produção de leite, o que leva a que não estejam praticamente disponíveis na balança alimentar, sendo só consumidos após morte por acidente, doença ou caquexia, ou em celebrações sociais (casamentos, óbitos, …)

Podemos dizer que, de uma forma geral, a composição da dieta tradicional nestes povos, também nos dias de hoje, devido a muitas destas condicionantes sócio económicas, tem um peso excessivo na fatia dos carbohidratos, com deficiências evidentes das parcelas proteicas, aminoácidos essenciais e vitamínicas.

Algumas das razões que levaram ao estabelecimento destes padrões alimentares prendem-se com diversos fatores, por ex religiosos, levando ao não consumo de suínos, de ou de concorrência direta no consumo dos cereais (aves e suínos) ou pelo consumo directo de pastos pelos ruminantes.

Os ruminantes, uma vez que conseguem aproveitar matéria vegetal, não consumida diretamente pelo homem, levaram as populações a adotar regras de maneio por exemplo a transumância, e como tal uma cultura pastoralista ou agro pastoralista que caracteriza ainda hoje grande parte destas comunidades.

Este breve enquadramento, leva-nos a pensar como podemos encontrar com as ferramentas e disponibilidades do Séc XXI alguma forma de minimizar estas situações.

A evolução política e económica dos últimos anos teve como consequência a migração das populações para centros urbanos com o agravamento das dificuldades de abastecimento de alimentos quer em quantidade quer muitas vezes de qualidade.

A facilidade de encontrar a nível internacional elevada disponibilidade de carne de aves e ovos, e a oportunidade de novos negócios, levou a que se estabelecessem canais comerciais para o abastecimento destes produtos, tendo-se tornado muito mais atrativa a importação do que a produção local.

No nosso ponto de vista existem condições para o estabelecimento de pequenas unidades familiares ou semi-industriais, utilizando os conhecimentos e disponibilidades internacionais no que diz respeito a genética e alimentação moderna.

Acreditamos que o produto a desenvolver será o ovo de galinha uma vez que:

Além destes atributos que melhorariam o cabaz alimentar, o estabelecimento destas pequenas unidades familiares e semi-industriais, permitiriam a criação de postos de trabalho, trocas comerciais bem como o estabelecimento de conceitos de economia, gestão, programação de atividades, etc.

 

  Por 55g DDR%
Energia (kcal) 82 kcal 4%
Lípidos (g) 6g 9%
Dos quais ácidos gordos saturados (g) 1,5g 8%
Hidratos de Carbono (g) 0g 0%
Dos quais açúcares (g) 0g 0%
Fibra (g) 0g 0%
Proteínas (g) 7g 14%
Sal (g) 0,19g 3%
Ácido fólico (µg) 27,5g 14%
Fósforo (mg) 101mg 14%
Potássio (mg) 72mg 4%

Nota: DDR – dose diária recomendada

É possível com investimentos razoavelmente pequenos, principalmente quando comparados com os valores de países desenvolvidos, estabelecer pequenas unidades semi-industriais rentáveis de produção de ovos.

Com alguma criatividade e esforço consegue-se produzir uma alimentação equilibrada para evidenciar o potencial genético das atuais estirpes que também se encontram com alguma facilidade em África.

Atualmente, esse potencial permite-nos a ambição de chegar a ter 20 e até 30 dúzias de ovos por galinha, dependendo do número de semanas da criação. Interessante é pensar que 20 dúzias, em cerca de um ano de postura, representam cerca de 14 Kg de ovo! E que a galinha só pesa cerca de 2 Kg! São sete vezes mais do que o peso corporal!

Só a título de exemplo, se compararmos com outras espécies animais, com uma alimentação e genética razoável na Europa (que não encontramos em zonas desérticas ou semidesérticas) uma vaca só produz uma cria por ano, que só terá cerca de 200 Kg ao fim de um ano, ou que os suínos produzem duas ninhadas por ano ou seja cerca de 25 leitões por ano, nas condições de genética e alimentação nestas zonas.

São números que nos dão que pensar e que acreditamos vale o esforço para alterar as condições de alimentação dos povos dos países ditos em desenvolvimento

Manuel Dargent de Figueiredo (m.dargent.figueiredo@gmail.com)