Cardus Edição 132, abril 2024
Ana do Carmo Lopes
A convidada deste mês é minha colega de voluntariado. Açoriana, pessoa de causas e de ação, comprometida com o desenvolvimento e humanismo, tem, como muita gente, um diário onde regista factos que a marcaram ou lhe interessaram registar. A meu pedido expresso partilha aqui uma pequena peça do seu caderno de vida. Assim, como está: diretamente do coração para o papel.
Obrigado, Ana.
Cardus
O sol entrava pela janela de forma intensa e levou-me até à varanda para ser abraçada pelo calor deste dia radioso. Em plena pandemia COVID19 e confinados em casa, sem podermos fazer os habituais passeios e caminhadas, as idas à varanda constituem um ato de liberdade.
Todo o movimento da rua passou a ter um significado especial. Está tudo muito mais silencioso porque são poucas as pessoas que se atrevem a sair e os restaurantes que alimentavam o bulício da minha rua estão fechados. A varanda de uma vizinha está cheia de hortênses de tom arrocheado e a de outra tem vasos com flores púrpura, o que alegra o ambiente.
Caminhando devagar e com um saco ao ombro, um homem com um boné que não tapava totalmente os seus cabelos brancos, parou junto do caixote do lixo do prédio em frente. Abriu a tampa, remecheu no lixo e retirou algo que meteu no saco, retomando depois o seu caminho.
Durante uns minutos, agitada e com o coração apertado (a doer), não consegui ordenar os pensamentos. A reclusão estava a fazer-nos passar tempos diferentes mas, a perceção das dificuldades experimentadas pelos que sobrevivem com recurso a soluções extremas como a deste homem, aliado às situações, que vamos conhecendo, de quem passou a viver sem quase nada por lhes ter faltado o emprego em consequência da pandemia, torna os nossos dias mais tristes e com uma inquietação que toca a amargura.
São tempos que constituem um desafio à nossa capacidade de resistir e ter esperança mas também tempos de reflexão sobre o modo como queremos estar neste mundo.