Cardus Edição 139, novembro 2024
Marrocos é um paraíso para veículos de duas rodas. Serpentear pelo Rif, subir e descer o Atlas, rolar por grandes retas e atacar curvas apertadas, é todo um prazer num espaço vasto e aberto. Roda-se à vontade, grupos de motards cruzam-se regularmente pelas estradas. A própria polícia muito rigorosa para os nacionais tem atuação leve para os visitantes, dispensa-os dos controlos de estrada, manobras perigosas são, com alguma habilidade verbal do infrator, ao que parece, perdoadas.
É um país que nos está próximo, e onde se chega em menos de um dia. De uma grande diversidade, tem muito de moderno e de antigo, uma atividade religiosa muito presente e um artesanato muito próprio e apelativo.
A população, aparentemente, convive bem com esta invasão motorizada, não reage mal quando se rola pelas ruas das medinas, se persegue camelos ou outras habilidades próprias de pessoas descontraídas. Em caso de acidente são os primeiros a ajudar.
O Hotel–Museu Continental fica no alto de Tânger dentro da fortaleza. Para se chegar atravessa-se a medina com as suas ruas estreitas e modernas ladeadas de lojas e cheias de gente que circula no seu dia a dia. Por elas passam também motorizadas que furam pela multidão numa perícia de invejar. Subir com quatro grandes motões até ao hotel foi tarefa apenas conseguida pelos três primeiros. O último teve de parar para não atropelar peões, atrasou-se e perdeu os outros de vista. Não se incomodam os locais com quem lhes invade o espaço - pelo contrário, são os primeiros a orientar os forasteiros no trajeto até ao hotel.
Descer foi mais fácil. Oportunidade também para se reparar nos sinais de trânsito e constatar que o trânsito em algumas ruas da medida está vedado a motas.
Tânger é uma cidade moderna com o património antigo bem conservado e muitas avenidas novas, largas e ladeadas de muito verde.
Foi preciso subir para se chegar ao Hotel que está lá em cima. O cortejo das quatro motas segue ruas acima sempre que possível em linha de vista. No fim da subida está uma rotunda na qual é preciso virar à direita. Uma mota segue ao lado dum carro que por azar quer virar à esquerda e que simpaticamente cede a passagem ao motão. A curva é apertada, o motão alto e pesado inclina demasiado e cai arrastando na queda os dois tripulantes. Estes saem da mota de gatas, levantam-se e seguem para a mota, já de pé, amparada pelo simpático condutor e amigos. Shkran, shkran e a viagem prossegue.
O azul é a cor de grande parte das casas de Chefchaouen. As ruas do centro estão cheias de pequenas lojas de artesanato, algumas com produção no local. Restaurantes servem comida marroquina.
Moulay Driss está para os marroquinos muçulmanos como Fátima está para os católicos portugueses. Grande centro religioso, a vila esteve no passado interdita a não muçulmanos, hoje apenas não se pode entrar na mesquita. Na rua principal da vila há lojas, restaurantes e muito trânsito: pessoas, triciclos motorizados, burros e quatro motares de ocasião que resolveram almoçar no Marrocos profundo.
Os palmares acompanham os leitos dos rios e estendem-se, em alguns casos, por dezenas de quilómetros. Nos palmares não vivem apenas as palmeiras, vivem também quem as cuida e delas depende para viver.
Marzouga é a zona do turismo de deserto. É aqui que aparecem os primeiros camelos. Uma récua deles segue em fila indiana em direção da duna. Já não carregam mercadorias como nas antigas caravanas, agora transportam turistas sorridentes para as tendas que os esperam provavelmente do outro lado da duna.
A duna está em frente: lisa, ondulada, curvas simples e harmoniosas. É bela, atraente.
A alvorada começa com o Almuadem chamando os fiéis para a primeira das cinco preces diárias. Segue-se o cantar dos galos madrugadores e logo depois começam os motores a roncar. Muitos e diversos e mais quatro que acabam de largar o hotel e seguir viagem.
A montanha foi redesenhada e Aït-Ben-Haddou nasceu. Chega-se a ela atravessando, a pé, o rio espraiado saltitando de pedra em pedra. À entrada da fortificação um porteiro de ocasião pede 20 moedas para as obras de reconstrução prontamente cedidas. Os caminhos não estão marcados, nas bifurcações há que perguntar qual o que leva ao cimo. As respostas refletem o negócio oportuno que pode dar algum aconchego à vida difícil: os visitantes são encaminhados para caminhos onde a partir de certa altura também é preciso pagar ou voltar para trás. Desistem os visitantes de chegar ao cimo, voltam para o hotel e esperam pelo por do sol no terraço. Aït-Ben-Haddou lá está, em frente, viva, solene, iluminada pelos últimos raios de sol do dia.
A enorme praça central enche-se de gente e barraquinhas de comida na noite de Marraquexe. Artistas de rua, encantadores de serpentes, negociantes, músicos, ocupam o restante espaço. O Almuadem chama pelos fiéis, mas a praça continua cheia de vida e movimento.
São intensos e diversos os cheiros em Marraquexe, quer na medina e praça central, quer no parque das caleches ao fundo. Misturam-se aromas de perfumes, de especiarias, de comida e de cavalo.
Em Marraquexe, manhã cedo, as ruas enchem-se de motorizadas que transportam pessoas para o trabalho: é o pai com a mãe e o filho, é a jovem com a amiga, é o velho e a criança, é um mar de movimento, que roda pela direita, pela esquerda, para onde quer que haja um buraco aberto. E é este mar pujante de vida que envolve os quatro motares quando se despedem da cidade.
A joia da coroa de Mazagão (Património Mundial da UNESCO) é a cisterna portuguesa, a reserva de água para os portugueses que durante 280 anos foram senhores da fortaleza. Na porta de acesso lá está o aviso de que o local está fechado para obras de restauro ou manutenção. E assim, com um simples papel apenso numa uma parede, se gorou aquele que seria o ponto alto da viagem.
Rabat é uma cidade moderna limpa e asseada, as lojas da medina estão apelativas e bem arranjadas. O mausoléu dos reis é visita obrigatória, nacionais e turistas enchem os espaços interiores, cá fora os guardas procuram manter-se sisudos e indiferentes às pessoas que se colocam ao lado para a foto.
Manhã cedo, um dos motares sai para a rua e passeia pela avenida. As luzes ainda estão acesas, a cidade ainda dorme, ouve-se o mar, pessoas passeiam cães, um ambiente calmo e tranquilo envolve a cidade e quem caminha.
Arzila é o último lugar de paragem antes do regresso a Tânger para apanhar o ferry. Estância balnear para nacionais e turistas faz lembrar o Algarve genuíno, que já não está longe, o que quer dizer que a viagem, como tudo na vida, está a terminar.