Cardus Edição 138, outubro 2024
Indivíduos maravilhosos fazem coisas maravilhosas em conjunto.
Steve Wozniak
Nesta foto temos duas pessoas sorridentes. Ela, diretora executiva duma fundação portuguesa1; ele, beneficiário duma instituição social2. São a Patrícia e o André. De onde vem tão grande sorriso?
É simples:
A instituição do André desafiou a fundação da Patrícia para acompanhar alguns dos seus beneficiários na Corrida do Tejo que se realizou, recentemente, em Oeiras. A fundação tem uma grande bolsa de voluntários pelo que não lhe foi difícil arranjar um grupo para colaborar na atividade. O acompanhamento solicitado consistia, basicamente, em empurrar os carrinhos.
Felizmente eram mais os voluntários que os beneficiários o que permitiu que, na hora da partida, aqueles se organizassem espontaneamente em equipas de um a três ou mais membros para cada carrinho e assim distribuir esforços por mais gente. Alguns benificiários possuíam ainda carrinho elétrico onde o acompanhante até poderia ser dispensado.
Dado o tiro de partida, a Patrícia começou por agarrar o carrinho do Rui juntamente com mais dois voluntários, dos quais um deles, a Sofia, a partir de certa altura, cansada de empurrar e puxar pelos colegas, resolveu dar um esticão e nunca mais ninguém os viu. A equipa do João recebeu, assim, dois novos reforços, num total de quatro elementos que, três a três, se iam revezando.
A Patrícia pratica regularmente exercício, mas não atletismo, e, por isso, corridos os primeiros quilómetros, apercebeu-se que tinha de mudar a estratégia se queria chegar ao fim. Ao lado do João seguia o carrinho do André que, como era elétrico, não precisava de acompanhante ou, pelo menos, de ser empurrado. E a partir de certa altura vê-se que a Patrícia e o André seguem juntos. Ele com a mão no comando e ela atrás ou ao lado, mas sempre a correr. Apenas deixavam de correr nos abastecimentos ou quando a subida apertava, tal como a equipa do João.
E assim, com as duas equipas mais ou menos a par, lá se foram somando quilómetros, até aparecer à vista o placard a dizer que o objetivo final está quase atingido. À frente a meta, pouco depois atravessada pelas duas equipas: a do João, com os três acompanhantes cansados (dois da corrida rápida e um da corrida lenta), mas sorridentes, tal como o João animado pelas palmas que se ouviam; e antes ou depois, não interessa para o caso, a do André com a Patrícia ao lado, os dois também com um sorriso de orelha a orelha, este agora enriquecido com um toque de cumplicidade que não passou despercebido aos acompanhantes da outra equipa.
Soube-se mais tarde que a Patrícia pediu ao André para não a deixar desistir. E assim, sem qualquer PowerPoint a ajudar, uma estratégia simples para se atingir os resultados pretendidos foi inspirada aos dois: ele encarregou-se de regular a velocidade do carrinho tendo em atenção o esforço possível da Patricia; ela de ignorar os queixumes das pernas pouco habituadas a este tipo de esforço. A estratégia resultou, o objetivo foi conseguido, a equipa funcionou, mais um caso de sucesso evidenciado no sorriso aberto e no destaque dado à medalha conquistada. Um “case study” de inclusão é o que apetece dizer.
Uma corrida diferente, um dia diferente, uma oportunidade para celebrar a diversidade, a inclusão e a alegria de viver, assim foi esta Corrida do Tejo 2024.
Notas:
2) APCL