Cardus Edição 137, setembro 2024
Viver significa lutar.
Séneca
Segue, rua acima, empurrando o carrinho cheio, até mais não caber, de lenha. Costas arqueadas, corpo inclinado para a frente, cara tensa do esforço, empurra o carro pesado com a mesma força com que empurra a vida. Ainda é cedo, não há muito movimento na rua. É a melhor hora para ir buscar lenha e guardá-la no quintal. Estamos no verão, mas a bailarina trabalha e há que precaver o inverno que há de chegar.
Quem a vê, pensa, por momentos, que a poderia ajudar. Mas não se mexe, deixa-se estar. Nem ela espera ajuda, nem esta ia resultar. Apenas ia perturbar e atrapalhar.
Vive sozinha, enviuvou há algum tempo. Tem um filho por perto que a ajuda sempre que pode, mas nem sempre pode. Mantém a horta, trata do quintal e arruma a casa grande. E à noite, senta-se na varanda, por uns momentos, para descansar e apanhar ar. E no dia seguinte repete-se o ciclo, em vez de ir à lenha, outro trabalho extraordinário, já pensado, irá fazer.
Não vai ao café e não se demora em conversas com as vizinhas. Não tem tempo. Tem um projeto para continuar, começou com dois, continua com um, um dia vai terminar.