Cardus Edição 135, julho 2024

CARDUS


A vida é uma sucessão contínua de oportunidades.

Gabriel García Márquez





VIVER PELA POSITIVA


Foto 112235862 © Tiago Lopes Fernandez | Dreamstime.com

Nem todos saíram de Angola (em 1975, no período pré-independência) pela ponte aérea que, na altura, foi estabelecida entre Luanda e Lisboa. Houve quem saísse de barco, e também um razoável número de pessoas saiu em colunas motorizadas pelo Sul com passagens pelo Sudoeste Africano e África do Sul.

Também nem todos vieram para Portugal ou, se vieram, não permaneceram muito tempo por cá. Uma parte da população portuguesa que saiu de Angola, em números que não posso quantificar, mas naturalmente pequenos, espalhou-se pelo Mundo, a maior parte pelo Brasil, alguns pelo Canadá e Estados Unidos outros ainda pela Austrália, isto olhando para os meus conhecidos.

50 anos depois destas migrações, através de contactos entretanto restabelecidos ou descobertos, essas pessoas voltam a encontrar-se agora em almoços de confraternização, em grupos bem identificados e organizados, cujo nome normalmente começa com “almoço dos antigos …”. Nesses reencontros epicurianos as conversas centram-se, na maioria dos casos, nas histórias de cada um ou de cada família. Estas são, regra geral, de sucesso, ou porque apenas se contam os sucessos ou porque quem não teve sucesso não está presente.

Num destes encontros o meu parceiro de mesa contou-me a sua história, um pequeno grande sucesso que, resumidamente, foi mais ou menos assim:

Ele e o amigo foram dos que saíram de Angola pelo sul. Ainda em Angola conseguiu arranjar uma licença de trabalho na África do Sul, o que lhe facilitou a vida neste país. As fronteiras não estavam fechadas, as autoridades deixavam as colunas entrar, eram encaminhadas para locais próprios e as pessoas sem licença de trabalho adquiriam um estatuto próximo do refugiado. Ele e o amigo conseguiram arranjar emprego, um trabalhava de dia e o outro de noite, o que permitia que no período da noite um deles fosse ajudar o outro. Os trabalhos não eram de grande responsabilidade, eram os que apareciam ou estavam disponíveis. Os da noite eram numa fábrica que produzia congelados para uma multinacional da área. Enquanto ajudava o amigo, observava e estudava a fábrica: como estava organizada, os equipamentos que tinha, os processos, o controlo da qualidade e, também, para quem produzia. Observações e dados foram passados a papel e seguidamente estruturados na forma de um projeto. Mais tarde, já em Portugal, andou uns tempos a correr bancos, um deles arriscou apoiá-lo, a fábrica nasceu para os lados de Peniche. Chamou o amigo para a sociedade, conseguiu ser aprovado como fornecedor para a mesma multinacional da África do Sul, a produção foi iniciada e cresceu de uma forma sustentada por largos anos. Quando fizeram 65 anos os dois amigos sentaram-se, olharam um para o outro, concluíram que estavam cansados e a precisar de descanso. Venderam a fábrica e com o dinheiro da venda conseguem viver (eles e as famílias) confortavelmente o resto das suas vidas por mais extensas que sejam.

Quem migra, forçado ou na procura de uma vida melhor, adquire ou desenvolve ferramentas que o tornam mais capaz, mais dinâmico e mais ativo. Todos os migrantes que conheço, agora quase todos no fim da caminhada, estão bem instalados na vida e com uma autoestima elevada. Por esta razão penso que as migrações não devem ser travadas, pelo contrário, devem ser incentivadas. Circular pelo Mundo ou mudar de lugar, forçados ou por iniciativa própria, é benéfico, torna-nos mais capazes, mais humanos, mais abertos, mais universais, com mais capacidade para enfrentar os desafios da vida. Fecharmo-nos num casulo, enfraquece-nos e limita-nos tanto mais quanto mais aconchegador for.