Cardus Edição 134, junho 2024
Foi numa visita à casa semiabandonada que reparou neles. Circulavam pelo espaço em movimentos lentos e silenciosos ou abandonavam-se ao sol por cima dos muros do quintal. Afastavam-se, sem pressas, às tentativas de aproximação da jovem.
Perguntou se podia aproveitar a ida ao supermercado para comprar comida para gatos - que ela própria pagava, tinha economias suficientes, apenas aproveitava a boleia. Que sim, sem problema, foi a resposta que recebeu. Por sinal de quem se preocupa com o facto de, nos supermercados, a zona da alimentação animal crescer tanto quanto a dos bebés diminui.
Compras feitas, juntam-se os dois carrinhos num só e segue-se para a caixa. Intencionalmente foi tudo incluído na mesma conta, não havia separação entre os produtos e a alimentação animal. Já no carro, a jovem procura o talão e, com a ajuda do telemóvel, faz contas. São à volta de vinte euros é o que diz ao condutor que sorri.
De novo em casa arrumam-se as compras e a jovem desparece. Volta dois segundos depois com uma nota de vinte euros na mão que estende a quem a recusa. Segue-se uma pequena tensão que resulta no acordo possível: a nota de vinte euros foi trocada por uma de dez, esta, agora, aceite.
Volta-se dias depois à casa semiabandonada com a comida para gatos na bagageira. Não foi chegar e atirar os petiscos aos bichos, a distribuição foi meticulosamente organizada. Por um processo de seleção próprio, os gatos foram identificados em grupos que, à vez, entravam na cozinha, com a porta de ferro a garantir que só entrava e saía o grupo selecionado. Os acepipes previamente distribuídos por pratos criteriosamente espalhados pelo chão eram rapidamente consumidos pelos felizardos. Que a seguir davam lugar ao grupo seguinte sem que, estranhamente, fosse difícil pô-los do outro lado da porta de ferro. Só ela e os gatos, estes obedeciam, ela dirigia.
Soube-se há dias que, finalmente, tem um gato. Um gato só para ela. Um ser de quem tem de cuidar, e que vai ter uma vida diferente dos parentes da casa semiabandonada. E já tem nome. Não é um nome simples, é composto por três nomes, um primeiro e um segundo, de escrita e pronúncia difíceis, e um terceiro, este sim, fácil de ler e pronunciar: é o nome dela, dos avós, dos pais, de todos. É o nome da família.
Duas gerações separam quem observa de quem intervém. E o mais velho dos dois, estranhamente, não fica chocado, pelo contrário, emoldura a cara com um sorriso empático sempre que conta esta história ou se fala no nome do gato.