Cardus Edição 133, maio 2024

CARDUS


Pequeno Comércio



Foto 96752130 © Natalia Zakharova | Dreamstime.com

Recordo “O Benfeitor” uma pequena mercearia que existiu em tempos em Linda-a-Velha. Ali, durante muitos anos, ia-se todos os dias comprar géneros para a alimentação diária familiar. Clientes e dono conheciam-se pelos nomes, cumprimentavam-se e era obrigatório falar. Conversas rápidas, onde a cada dia se sabia mais de cada um. A determinada altura, soube-se que o dono era retornado, tinha arranjado aquele pequeno negócio para sobreviver. Nunca tinha sido merceeiro, aprendeu a sê-lo por necessidade. Trabalhava duro, levanta-se alta madrugada, dirigia-se aos mercados, comprava géneros frescos, abria a loja impreterivelmente às oito horas, já com tudo arrumado nas prateleiras e os caixotes alinhados com as frutas e legumes. Não estava sozinho, a família ajudava, a mulher em permanência os filhos quando podiam. Merceeiro à força, fazia por ser simpático, mesmo para clientes que lhe davam cabo da fruta remexendo-a toda à procura da melhor peça. Um dia, com uma úlcera no estômago, acabou por trespassar a loja, hoje o espaço pertence a uma cadeia de distribuição.

Entretanto apareceram as grandes superfícies. Acabou-se o bom dia, a conversa e as novidades. Agora é entrar, encher o carrinho, passar pela caixa, pagar e regressar a casa com material para uma semana. Tudo certinho, eficiente, com promoções, cartão de fidelização com pontos e descontos. Uma maravilha. Folhetos anunciam baixas de preços, há quem corra dois ou três supermercados para comprar as melhores promoções de cada um deles.

E o pequeno comércio? Pois, estranhamente, sobrevive. Volto a ele dezenas de anos depois, por via do levantamento do cabaz semanal, uma moda de há uns anos que se tem mantido. E na mercearia onde o levanto lá estão as prateleiras arrumadas, as frutas e os legumes, tal como no antigo Benfeitor, apenas os caixotes deram o lugar a cestos. Um pouco de cada coisa. Não há donos e empregados, toda a família trabalha.

Na caixa, uma senhora, descobre que não trouxe a carteira. Mas não está preocupada, vem pagar mais tarde, deve ser conhecida da casa. Sai com os géneros, a senhora da caixa pega na fatura e prende-a num painel de cortiça. É mais uma a acrescentar às muitas que já lá estão. Manifesto a minha estranheza, sou respondido com um sorrido comercial: pois, são pessoas aqui do bairro, conhecemo-nos todos, …

Não demorou muito tempo a perceber: são as faturas no painel de cortiça que fazem a diferença para as grandes superfícies.