Cardus Edição 132, abril 2024

CARDUS


A velhice é a paródia da vida.

Simone de Beauvoir





Setenta e Sete


77 é um número simpático, diria mesmo bonito. Ou pelo menos que envolveu muita simpatia à volta de quem o tem, de quem o fez, de quem o atingiu.

São dois setes lado a lado. Dois patamares que já não vão ter um terceiro. Apenas um primeiro patamar e agora um segundo. Entre os dois estão setenta anos, o que é muito tempo de vida. Que, contudo, passou num ápice. Não diria que a vida começa aos 7 e acaba aos 77, porque na realidade também houve muita vida antes dos e provavelmente vai continuar a haver depois dos. Mas o que penso é que o antes e o depois são muito parecidos.

77 é um número capicua. Há mais capicuas na vida, mas a mais equilibrada parece-me ser esta. Temos por exemplo o 66, que de certo modo se aproxima mais da vida real, ou talvez ainda o 88 lá mais para a frente. Mas nesta hora de escolher uma capicua para marco da vida, voto no 77. Os seis e os oitos são muito redondos e gordos. Os setes, pelo contrário, são elegantes e finos, são números perfeitos. Dois setes parecem-me a perfeição, o estado em que estamos quando atingimos esta idade. Isso mesmo, perfeitos: no saber, na experiência, no estar, na compreensão do mundo que nos rodeia; e, tal como quando tínhamos sete anos, mais livres, sem a pressão da ambição, da carreira, do poder ou da responsabilidade.

Pois … e atingida a perfeição que mais resta? Penso que não resta muito. Continuar a gozar os rendimentos, como se diz na gíria popular, com a consciência que não vamos estar eternamente no patamar, um dia vamos descer pela perninha do sete abaixo (sem a pressa com que a subimos) e voltamos ao lugar de onde partimos.

É assim, 77! Um marco na vida. A idade em que atingimos a perfeição.