Cardus Edição 130, fevereiro 2024
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Medita D. João V no que fará a tão grandes somas de dinheiro, a tão extrema riqueza, medita hoje e ontem meditou, e sempre conclui que a alma há de ser a primeira consideração, por todos os meios devemos preservá-la sobretudo quando a podem consolar também os confortos da terra e do corpo. Vá pois ao frade e à freira o necessário, vá também o supérfluo, porque o frade me põe em primeiro lugar nas suas orações, porque a freira me aconchega a dobra do lençol e outras partes, e a Roma, se com bom dinheiro lhe pagámos para ter o Santo Ofício, vá mais quando ela pedir por menos cruentas benfeitorias, a troco de embaixadas e presentes, e se desta pobre terra de analfabetos, de rústicos, de toscos artífices não se podem esperar supremas artes e ofícios, encomendem-se à Europa, para o meu convento de Mafra, pagando-se, com o ouro das minha minas e mais fazendas, os recheios e ornamentos, que deixarão, como dirá o frade historiador, ricos os artífices de lá, e a nós, vendo-os, aos ornamentos e recheios, admirados. De Portugal não se requeira mais que pedra, tijolo e lenha para queimar, e homens para a força bruta, ciência pouca.
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José Saramago (Memorial do Convento)
Como diz o meu colega da página dos Museus, os portugueses não vão aos seus museus. Tem toda a razão, sou um exemplo dessa verdade: só recentemente entrei, pela primeira vez, no Palácio Nacional de Mafra que não fica muito longe do local onde moro; pior, apenas lá fui porque familiares de fora manifestaram interesse em visitá-lo. Uma vergonha!
Não é intenção desta página falar sobre a história e o acervo do palácio, há muita documentação publicada e informação acessível na internet, por exemplo, a página da Wikipédia é muito completa sobre o monumento. Talvez tenha então algum valor acrescentado registar tão só a opinião de um visitante que leva pessoas de fora consigo a quem quer deixar boas referências do país que visitam.
A grandiosidade do palácio é a primeira coisa a sobressair quando se chega. O próprio largo em frente é enorme. Infelizmente, com a aproximação começa-se a notar que o amarelo das paredes está sujo e desbotado, e a partir do chão cresce uma mancha escura de fungos, que tapa a pedra calcária, principalmente junto aos torreões, onde já tem uns bons metros de altura. É sobre estes pormenores que as primeiras perguntas surgem, aparentemente bastaria lavar as paredes regularmente, é mais complicado defende-se o guia, a pedra calcária requer tratamentos próprios para a sua limpeza que são caros pelo que só são realizados de tempos a tempos.
Tudo é em grande no palácio. O hall de entrada também. A bilheteira está ao fundo esquerdo juntamente com a loja do museu onde só mesmo quem quer comprar se dirige. A grandeza do palácio não tem equivalente na loja, o espaço é pobre e muito pouco apelativo.
Nem tudo está aberto ao público. Olhando agora para as plantas do guia verifico que o que se pode visitar é apenas uma pequena parte que, contudo, já é enorme. Caminhar do torreão da rainha ao torreão do rei são quase duzentos metros, virando à esquerda são mais duzentos e depois mais cem à esquerda para se chegar à biblioteca. Como se sai por onde se entra, uma visita à parte visitável e pagável do palácio é uma caminhada de quase um quilómetro, sempre a direito. Nesta caminhada segue-se de sala em sala sempre rodeados de pintura, paredes de pedra trabalhada, móveis antigos, chão de mármore, mais não deu para apreciar porque há que dar atenção aos miúdos que, perante tanto espaço disponível, não resistem a uma correria sempre que oportuna. Também não se veem muitos seguranças nas salas.
A sala da caça tem as paredes de alto a baixo decoradas com cabeças de veado embalsamadas. Aqui quem andou rápido foi o autor, as perguntas das crianças sobre de onde vinha tanta cabeça de animal não o deixavam muito confortável nas respostas, estas também não pareciam muito convincentes para quem ouvia.
E no fim da caminhada (da ida) lá está, então, a biblioteca. Uma grande e comprida abóboda rodeada de estantes de livros (36000, segundo a brochura, alguns com letras e bordados a ouro). Aqui há que parar, suster a respiração e admirar. E depois, deixar a realidade entrar e questionar para que é que serviram tanto livro, se há ciência dentro, se alguém os leu, e imaginar a quantidade de pó que já deve cobrir grande parte deles, senão todos.
Na basílica, como suponho que em todos os locais para a prática da religião, a entrada é livre. E ao entrar há que parar novamente porque o que está à nossa frente é algo de grandioso e rico. Mesmo, muito rico. Não há canto nenhum onde não haja pormenores, não há uma parede lisa, são recortes e mais recortes, cores naturais, pedra trabalhada, órgãos, carrilhões, altares, imagens santificadas, dourados, mármores, como dizia Saramago, perante tanto recheio e ornamentos, ficaram ricos os de fora e admirados os de cá. Um grande investimento em religião, área onde sempre se investiu bem em Portugal.
Na viagem de regresso a casa não se falou muito do palácio que, pelos vistos, não deixou ninguém maravilhado: há qualquer coisa nele que o torna pequeno apesar de toda a grandeza que tem.