Cardus Edição 129, janeiro 2024
Se habitarmos perto de uma estação de comboios, isso muda completamente a nossa vida. Ficamos com a impressão de que estamos de passagem. Nada é definitivo. Num ou noutro dia, acabamos por embarcar num comboio.
Patrick Modiano (La Petite Bijou)
A linha do Oeste vai de Lisboa até à Figueira da Foz. É uma linha de via única, ainda não está eletrificada, está cheia de cancelas, é atravessada por muitos caminhos e estradas, o “Pare, escute e olhe” encontra-se regularmente por quem circula pelo Oeste. É uma parente bastarda da linha do Norte, as cidades por onde passa lutam por ela, os governos é que parece que não lhe prestam muita atenção. A eletrificação está em curso, quem viaja apercebe-se que há obras na via, prazos de conclusão é que ainda não existem. O comboio é designado por automotora, não há muitas, e, regra geral, não levam muitos passageiros. Vai-se devagar, sem pressas, a automotora para em todas as estações e lá segue pachorrentamente por montanhas e vales que é a paisagem típica do Oeste.
Ao longo da linha tem-se estações e apeadeiros, destes o mais conhecido do autor é o de Pataias que, como provavelmente muitos outros, está desativado. Aqui apenas se pode entrar e sair da automotora, nos casos em que ela para.
Foi em Pataias que tudo começou. Uma fábrica de cimentos foi, em tempos idos, construída no local e inaugurada com pompa e circunstância. Um pó branco começou a sair das chaminés e durante dezenas de anos cobriu todo o espaço à volta onde se encontravam habitações e pinhais. Uma espécie de neve suja que não tinha estação. Pequenas fábricas vidreiras deixaram de poder laborar e os respetivos empregados despedidos nos tempos em que não havia subsídio de desemprego. Um ano sem trabalho era uma situação impossível para um casal com um filho, a solução estava na emigração: para as colónias, para Angola, de onde veio a necessária “carta de chamada”. Quem emigrou esperava um dia poder voltar, talvez por isso nunca tenha criado raízes nos lugares por onde andou, nem as inspirou à prole que, entretanto, foi crescendo. Não voltaram todos, um ficou por lá, quem tudo começou também voltou, mas envolto em tábuas de madeira. O terreno comprado para construção da casa de sonho virou pinhal, no centro ficou o poço aberto, a marca visível dum projeto por concretizar.
São estas memórias que atacam o viajante que sai da automotora no apeadeiro de Pataias, 73 anos depois de nele ter embarcado para a vida. Não há mais passageiros a sair, não existe mais o cais cheio de gente, em frente estão as ruínas do que poderá ter sido uma vidreira. A fábrica, lá está, majestosa, continua a laborar, as chaminés já não vomitam pó, um estranho silêncio envolve a fábrica e o cais.