Cardus Edição 140, dezembro 2024
Vivian Suter (1949) exibe no MAAT mais de cinco centenas de pinturas. Exceptuando um conjunto de pinturas inéditas, a grande maioria delas foi executada num período de (últimos) dez anos. O visitante depara-se com um espaço saturado de constelações de pinturas. Estão dispostas de alto a baixo nas paredes (sala oval, incluindo rampa e escadaria de acesso) – algumas prolongando-se pelo chão; ora acercadas umas das outras, por ser pouca a distância a separá-las, ora parcialmente ocultadas por outras; suspensas a várias alturas do tecto ou de improvisadas estruturas de armazenamento. As telas de tecido fino, não preparado, ostentam as marcas de terem sido esticadas sobre grades para a feitura da pintura. Retiradas das grades, as telas assemelham-se a peles, cortinas suspensas ou lençóis a enxugar, precariamente delimitando zonas no espaço expositivo. Apresentam composições monocromáticas, translúcidas (deixando ver áreas não-preenchidas), acompanhadas de evocações de figuras, paisagens e vegetação; vibrantes composições cromáticas em planos claramente demarcados; abstracções expressivas, gestuais, com superfícies espessamente empastadas. Com diferenciados graus de desenvolvimento, estas pinturas não estão destinadas a ser vistas frontalmente, exclusivamente. Amarfanhadas ou esfiapadas, justapostas ou sobrepostas; dobradas sobre um suporte ou acumuladas como tapetes sobre um estrado; obliquamente colocadas no espaço ou num canto; penduradas em improvisados arquivos, alinhadas a escassa distância umas das outras – avesso com avesso; por vezes, frente com frente – ou suspensas acima da cabeça do espectador; estas telas aparecem como um desafio ao princípio da frontalidade do suporte pictórico bem como ao de uma definida posição do mesmo. Por conseguinte, as pinturas podem ser montadas de diferentes modos, consoante as circunstâncias expositivas. Sem posição predominante, cada tela permite distintas formas e posições – individualmente ou como parte de um conjunto – e faz valer a equivalência entre avesso e frente pintada.
Os vestígios da influência do clima e vegetação envolvente – chuva, ramos, folhas, lama, terra –, da passagem de insectos e cães (Bonzo, Tintin, Nina e – o que dá título à instalação – Disco) são incorporados nas superfícies pictóricas, juntamente com outros desperdícios (tampas, jornais). A decisão de acolher a actividade da natureza envolvente no espaço pictórico sobreveio após a vivência de duas situações dramáticas. O estúdio da artista, situado numa antiga plantação de café em Panajachel (Guatemala) sofreu duas severas inundações: uma causada por um furação (Stan, 2005); a outra, por uma tempestade tropical (Agatha, 2010). Ambas as catástrofes deixaram indeléveis marcas de água e lama em todas as telas aí armazenadas. Perante a cena de destruição, opta por moldar, doravante, as suas decisões artísticas através de uma estreita relação entre o ambiente imediato e o espaço pictórico.
A integração de matérias estranhas à tinta associada à valorização do acaso foi, historicamente, uma atitude de distintos cultores (Duchamp ou Pollock) e movimentos (dadaísmo ou arte cinética). A sistemática contestação da convenção do quadro tradicional (quadro de cavalete), alargada à moldura, suporte, tela, bidimensionalidade, mas também às condições em que a pintura é exibida (o sítio e as instituições) foi desenvolvida por pintores de Surface / Support e, antes, por Simon Hantaï. Inclusive: o uso de telas sem preparo, trabalhadas no chão com instrumentos não-tradicionais (Helen Frankenthaler ou Pollock). A tela é assumida ora como superfície de inscrição material (lugar de acumulação material e aplicação de substâncias), ora como ecrã (onde a tinta se impregna, atravessando a espessura do tecido). A escolha da artista em dispensar a grade permite que a imagem pintada não seja prioritariamente percebida pelo observador (evitando a ofuscação do suporte). Ao invés, possibilita que o suporte pictórico seja percebido como mero tecido. Trazendo para o espaço expositivo o sistema de armazenamento usado no estúdio, no qual suspende as suas telas lado a lado, Vivian Suter não torna apenas impossível que se veja cada pintura enquanto imagem única, fechada e autónoma, mas encurta a distância entre o local de criação (com obras em vários estádios) e os lugares da sua exposição.