Cardus Edição 139, novembro 2024
Nos últimos anos, a multifacetada obra plástica de João Abel Manta [JAM] tem recebido renovada atenção. Com relevante exposição internacional enquanto artista plástico, JAM foi, também, um premiado arquitecto.
Recapitulemos os últimos três anos: a exposição João Abel Manta – A Máquina de Imagens (Fundação D. Luís, Cascais, 2021); a reedição de Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar (Tinta da China, 2022) – uma publicação de 1978; a retrospectiva centrada na sua produção pictórica, Retrospectivas (Sociedade Nacional de Belas-Artes, Lisboa, 2023) bem como a reedição de Cartoons 1969-1975 – álbum publicado em 1975 que, após criteriosa revisão e ampliação, adquire um novo título, Cartoons 1969-1992 (Tinta da China, 2023); por último, em 2024, Uma Coisa Nunca Vista - João Abel Manta: Artista Revolucionário (Museu Abel Manta – Museu Municipal de Arte Moderna, Gouveia) e Livre (Palácio dos Anjos, Algés). O título da exposição antológica, Livre, patente até final do ano, resume na sua brevidade a consistente postura de inquietação ética e estética de um autor, cujo percurso artístico compreende diversas disciplinas artísticas.
A espantosa obra gráfica de JAM – em particular, os cartoons – constitui uma cáustica reflexão crítica sobre Portugal e um inestimável testemunho da sociedade e política dos anos anteriores e posteriores a 25 de Abril de 1974. Caracteriza-a a inegável mestria no domínio de elementos plásticos (composição, contrastes de cor e figuração) e um estilo de desenho próprio, facilmente reconhecível (formas sintéticas, contornadas por um traço negro regular).
Entendendo os cartoons políticos como acto político e comunicacional, destinado a interpelar uma vasta audiência, JAM visou acontecimentos determinantes da vida portuguesa; mentalidades de certas camadas populacionais; imagens que de nós forjámos (o que fomos ou quisemos ser – ou não); símbolos políticos e fantasmas históricos. Colaborou com a imprensa nacional (1969-1972) durante a fase final do Estado Novo: a (falaciosa) primavera marcelista. A censura (política, moral e social) infligiu-lhe, por alegada profanação da bandeira nacional, a cessação da actividade. O segundo momento político da sua carreira inaugura-se com o 25 de Abril. Usando meios diversos, desde o desenho à colagem (fotografias ou gravuras), JAM fixou em imagens emblemáticas a Revolução de 1974 e o conturbado período de alterações políticas e sociais (PREC). Um mérito que justifica a reputação de «artista da Revolução» (João Medina). Defendeu as ideias de Abril e do Movimento das Forças Armadas, mas sem cair na tentação de adoptar a cómoda posição de defesa ou ataque de um lado específico.
Numa celebração da liberdade restaurada num país a ser refeito, decididamente, em «país habitável de todos» (Eduardo Lourenço), em prometida terra de justiça, os seus cartoons contribuíram para a necessidade de reaprender a falar, discutir, escrever, em suma, aprender a «viver quotidianamente o regressar da política à posse de cada um» (Jorge de Sena). Depois de quase meio século de divisão entre donos da verdade e do poder (contra os inconformados com a falta de liberdade) e o povo amordaçado e politicamente apático durante séculos (a sobreviver como pode entre futebol e emigração), povo e governo teriam, doravante, de trabalhar cautelosamente para que a liberdade (longamente esperada e desejada) trouxesse um país novo, e não o Portugal de sempre. A liberdade é frágil, facilmente transviada por oportunismo, calculada maldade, desordem, sofreguidão, violência e engano. Tal como as revoluções do passado, a revolução perder-se-ia no país, desvirtuada a partir de fora por ínvios caminhos ou esmagada à força, ou a partir de dentro, transformada em burocracia e cegueira partidária. Em nome da liberdade e da democracia, se sabota, vende ou trai. Quem se vendeu uma vez e (ocultando ligações com o antigo regime) quer vender-se uma segunda («Como distinguir um Pintor Fascista depois do 25 de Abril»). A súbita («Metamorfose»), destituída de enraizamento interior, traduz-se em urgência de novos penteados, trajes («Vira-Casacas»), símbolos e decorações. Para («Não deixar murchar a flor») da revolução, sob interesses medonhos ou lutas suicidas, há que regá-la e cuidá-la pacientemente.
Imagens:
Metamorfose
Vira-casacas
Como distinguir um pintor fascista após o 25 de Abril
Máquina de Imagens
Para não murchar a flor