Cardus Edição 138, outubro 2024
Centro Cultural de Belém, de 23 de março a 15 de setembro de 2024. Exposição encerrada.
No Centro Cultural de Belém, esteve exposta uma instalação audiovisual, Evidence – Soundwalk Collective & Patti Smith. Esta instalação surgiu de uma colaboração entre artistas e músicos. Desta vez, o dito colectivo de arte sónica contemporânea, fundado por Stephan Crasneanscki, trabalhou com a multifacetada Patti Smith. Evidence integra diversas formas de media (filme, desenho, poesia, música e objectos) e tecnologia sonora que proporciona ao visitante uma experiência auditiva imersiva e tridimensional. A instalação gravita em torno de três autores franceses (Antonin Artaud, Artur Rimbaud e René Daumal) e da geografia física e espiritual das suas viagens (respectivamente: Serra Tarahumara – México; cidade sagrada Harar e planalto de Abissínia – Etiópia; Monte Análogo – Índia). As viagens iniciáticas de cada um dos poetas implicam um aturado trabalho de conhecimento, vigilância e transformação de si próprio. Como iluminados, exaltados e incandescentes, contestaram uma cultura divorciada de uma vida autêntica, descrente do que nos faz viver e do ímpeto que nos faz viver, impedindo-nos de ser o que deveríamos. Inteiros nos actos das suas vidas, ambos se sacrificaram pelas suas visões perfeitas.
A história desta parceria antecede Evidence, consubstanciada em projectos discográficos: Killer Road, Mummer Love e The Peyote Dance. A amizade que a sustenta aconteceu – citando Patti Smith – «nas nuvens, por cima do mundo».
A instalação desenrola-se em duas salas. Na primeira sala, na penumbra, o espectador pode ler nas paredes – depois de recolher auscultador e dispositivo de reprodução áudio – os excertos das conversas entre os criadores (em três línguas: português, francês e inglês). Na outra sala, escura, destaca-se uma parede iluminada – onde são justapostos esboços, objectos, fragmentos naturais, instrumentos musicais, manuscritos, fotografias (inclusive dos três poetas) provenientes dos arquivos pessoais dos criadores. O espaço expositivo está dividido em zonas sonoras e marcado por aglomerações várias (constituídas por objectos, utensílios, pedras, desenhos de Patti e Stephan ou fac-similes de Artaud, materiais e matérias). A luminosidade ambiente é variável: umas vezes, cai a escuridão; outras vezes, a claridade. Ao deambular, o espectador-peregrino, munido de auscultador, altera em tempo real, conforme a sua posição, o volume e a frequência dos sons ouvidos das fontes sonoras. No início, ouve a voz de Patti Smith: «Tudo arde». Em volta do espectador, fervilham projecções que varrem (ou galgam) as paredes da sala (incêndios, explosão de bomba atómica, montanhas, figuras humanas em danças rituais, lua em céu nocturno, piroga vogando em águas calmas, caminhante no deserto, etc.) Imagens onde não há a redução dos lugares do mundo às suas aparências, nem a semelhança excessiva com realidades sumárias. Ouvem-se, além da litania de textos poéticos, sons dos sítios (sinos, ovelhas, aves, portas, tambores) e de elementos naturais (chuva, vento, água, pedras, paus).
Os três poetas morreram jovens, perto de Paris. Nos respectivos leitos de morte, expressaram o desejo de regressar, uma última vez, às paisagens que os inspiraram. Evidence efectua, em certa medida, esta última viagem por e com os três poetas e mestres. Stephan Crasneanscki viaja fisicamente, calcorreando os seus passos, trazendo vestígios dos lugares visitados (Etiópia, Índia e México) e registando o que parece estar lá aguardando a sua chegada. Nesses lugares, onde ainda se pode sentir uma presença sagrada, são feitas gravações e recolhidos materiais (pedras, areia, pedaços de madeira). Escutando a banda-sonora das viagens de Stephan (sons de: paus, pedras, chuva ou vento), Patti Smith viaja mentalmente para lugares novos. E, por intermédio da linguagem e da interpretação da voz, ela reanima (reinterpretando) os três poetas pelas suas palavras. O material sonoro de Evidence provém do álbum triplo Perfect Vision (2017-2021). Caminhar e ler são modos de viagem e peregrinação. Peregrinar, segundo um caracter chinês, significa: reverenciar a montanha, por meio da sua escalada. Deixando para trás o jardim circular, ouve-se, à saída: «Fica atento. Encontra-te.» Um convite para despertar coração e nervos. Uma exortação à ascensão, serena e lenta.