Cardus Edição 137, setembro 2024
É muito provável que, ao transpor a entrada do MATT, em Lisboa, o visitante seja atraído por sons de percussão. E, avançando para a rampa que dá acesso à galeria oval, logo se aperceba de uma gigantesca e colorida teia suspensa. Durante a descida, deparar-se-á com os pesos que equilibram a forte e delicada malha têxtil de Nosso Barco Tambor Terra – uma das maiores esculturas realizadas por Ernesto Neto. Executada em tiras de chita – um tecido associado à história da globalização terrestre, encetada pelas viagens transatlânticas desde o século XVI; a ex-escravos, populações rurais pobres ou errantes; e, mais recentemente, à identidade brasileira –, a teia é tecida (sem agulhas) em croché por várias mãos. Suspensa sobre uma espécie de terreiro – um espaço aberto, de formato oval, alongado, com uma reentrância de cada lado – a superfície-teia é dobrada nas extremidades e esticada por pendentes (com feitio de gota de água), contendo especiarias ou vegetais, de modo a formar arcos suspensos em toda a volta do espaço interior.
Na galeria oval, saturada de aromas de especiarias, o visitante aperceber-se-á – depois de se descalçar para aceder ao espaço interior da escultura – de que a teia se prolonga a partir de algumas cavidades (situadas ao longo do eixo maior da teia) até ao chão, nele invaginando-se. Embora lhe possam parecer, também, grossos troncos de árvores que se elevam a (ou erguem) o céu que a teia cria. Da teia pendem outros pendentes – quais lianas em redor dos troncos de árvores – escondendo instrumentos sonoros.
Embrenhando-se no acolhedor refúgio – microcosmo alusivo a embarcação, floresta ou ilha luxuriantes – o visitante é sujeito a uma experiência multissensorial. À medida da sua curiosidade, pisando suavemente o terreiro atapetado de cascas de árvore, pode tactear e cheirar as variadas texturas, os grãos de arroz, milho, feijão e café; açafrão, cominhos, canela, curcuma, pimenta; e tocar tambores, pandeiros, tijela tibetana, reco-reco, címbalo e outros instrumentos sonoros, provenientes de distintas geografias culturais. Ou, em alternativa, pode sentar-se nas almofadas e fruir o eterno instante. Alguns visitantes tocam, atendendo aos sons gerados por outros. Outros tocam sem delicadeza e sem preocupação de sincronia. Sob o olhar passivo dos pais, algumas crianças tocam, furiosamente. A teia suspensa estremece. Cada toque repercute-se em toda a teia. A impressão de fragilidade impõe-se, apesar da grandeza da escultura.
A ênfase no espírito de comunidade, na celebração da alegria e harmonia pelo canto e dança, é potenciada por uma programação musical ligada à diáspora africana e asiática. A escultura é uma adequada metáfora da teia terrestre de relações em que as comunidades humanas se integram; da necessidade de uma relação com o mundo e com os outros, feita de participação, empatia e comunhão. A desconexão do mundo sensível – no qual as nossas técnicas e tecnologias estão enraizadas – e a desconexão interior deve-se à perda da nossa reciprocidade ancestral relativamente à Terra animada. Os povos indígenas têm a consciência profunda de que são parte da Terra (Gaia), indissociáveis do corpo da Terra-Mãe; e nunca, seus mestres e proprietários. Os saberes e a maneira de viver e pensar das culturas orais indígenas poderão auxiliar-nos a reconhecer e a coexistir com os modos de inteligência e de consciência que não possuem uma forma humana, com as muitas formas e vozes da Terra viva. E, por essa via, a contrariar o processo de violência perpetrado contra a terra, as diversas espécies, culturas e humanos, através de extinção, extermínio e colonização.
Saindo do espaço interno e acercando-se das paredes da galeria oval, cujo rodapé é realçado por uma acumulação de elementos vegetais (ervas, folhas e ramos), o visitante poderá demorar-se a observar os desenhos discretos (tais como: planta de um barco negreiro, animais, aviões) e a reflectir sobre os escritos poéticos e o luminoso manifesto de uma «arte contemporosa».