Cardus Edição 136, agosto 2024
Criador prolífico com obras em várias partes do mundo, efectuadas nas mais diversas técnicas, meios e materiais, VHILS inaugurou, em 19 de Junho de 2024, na nova estação de metropolitano do Aeroporto de Orly, em Paris, o mural “Estratos Urbanos”. Em azul e branco, a obra é composta por mais de 11 000 azulejos texturados, articulando num espaço ilusório representações de rostos (em grande plano) com fragmentos de vistas aéreas e monumentos de Paris. A cidade tem sido o material das suas intervenções, mediante as quais valoriza a interacção entre as imagens entalhadas e o espaço-tempo em que se inserem. Os tempos de praticante de graffiti – tomando de assalto, em céleres gestos ilegais, as infinitas superfícies de inscrição e de execução ilimitada, disponíveis no espaço urbano – bem como de sabotagem e desvio de posters e painéis de publicidade, estão distantes. Há muito que o seu percurso (enquanto destacado autor de ‘street art’) comprova a curta distância entre a rua, o espaço público urbano e as instituições de arte.
Muros e paredes de edifícios esquecidos, abandonados ou deteriorados – tombados fora da vida económica da cidade – são picados, percutidos e sulcados para transferir imagens fotográficas de rostos, em alto contraste, de pessoas anónimas. Lembrando o princípio da gravura, o processo de extracção de porções materiais da parede permite revelar camadas ocultas, pormenores ou vestígios de uma história do local, incorporadas no desenho das imagens. Além de marcas e cicatrizes dos seus suportes, as imagens entalhadas agregam, por vezes, elementos pré-existentes (janelas, canalização, e etc.). A utilização dos explosivos – registada em obras videográficas – confere dramatismo ao dito processo construtivo, porque se joga a contradição entre a súbita nuvem feita de estilhaços e fumo originada pela explosão (fazendo o espectador imaginar, inicialmente, o caos e a eventual pulverização completa do muro) e o aparecimento final de uma configuração instantânea, cristalizada. Ao tempo de feitura inscrito na configuração é sobreposto o tempo cinemático (explosão filmada). A espectacularidade é evidenciada, quer pela lenta queda dos estilhaços (momento de desagregação), quer pela reversão temporal ulterior (momento de reconstituição). Embora fascinante, o ciclo de deflagração e reconstrução, expiração e inspiração, não exclui o acidente que faz ruir a parede e o que nela foi inscrito. De modo análogo, as mudanças que se operam na cidade – repercutindo-se no modo de a representar e de a percorrer, de construir uma mentalidade urbana própria – devoram as intervenções urbanas, efémeras, que são a expressão de uma vontade de religação afectiva com os lugares degradados, abandonados ou banidos da urbe. O deslocamento do centro – centro da cidade; centro de poder ideológico, económico e social – e da periferia é incessante.
A primeira favela do Rio de Janeiro – denominada Morro da Providência – foi alvo de um polémico plano de reabilitação, durante a preparação antecipada de eventos desportivos mundiais (Campeonato Mundial de Futebol da FIFA de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016). Para além de teleférico, eléctrico e novas estradas, o plano estipulava, para um terço da comunidade, a expropriação e a demolição de casas. Sob uma atmosfera de tensão e desolação, VHILS desenvolveu aí o seu projecto, envolvendo entrevistas às pessoas expropriadas e a gravação de seus rostos no sítio onde viviam. Melindra-as a saída forçada da favela – implicando a perda de um sentido de comunidade vivido – e a inadequação do plano às necessidades da maioria. Cada imagem esculpida constitui, conforme um dos entrevistados, um desmentido da partida. A pessoa sai, mas a imagem – como seu prolongamento imediato – resta no sítio, marcando uma ocupação provisória. A imagem do rosto é apreciada como uma obstinada e vertical forma de permanecer no tempo – apesar da precariedade das ruínas – e de afirmar a resistência num espaço perdido.