Cardus Edição 139, novembro 2024

Malisca

É tão difícil guardar um rio
quando ele corre dentro de nós.

Jorge Sousa Braga




Crónica publicada originalmente no jornal Milénio de Toronto (Canadá).

AS QUATRO ESTAÇÕES


Na minha infância africana, aprendi a descrever as quatro estações do ano pela ordem em que se sucediam nas páginas do livro único: primavera, verão, outono e inverno. Enumerava-lhes os atributos, que passavam pelo que de mais belo ou útil existia em cada uma delas. No fim, terminava com a inevitável declaração de amor: “Eu gosto muito das estações do ano”, porque esta era a fórmula com que dávamos por findas todas as redações.  Foi assim que enchi a minha memória de muitas páginas de descrições de figuras, animais, paisagens e lugares, sem nunca os ter conhecido ou sequer visitado.

Treinada a obedecer, não me questionava sobre a utilidade de matérias tão ausentes do meu quotidiano, vivido noutras latitudes. Pelo contrário, achava até que contribuíam para me alimentar uma imaginação que, sem outros referentes, criava os seus a partir da informação que ia armazenando.

Talvez seja por isso que, sem dificuldade, desatei o espartilho das ideias feitas e passei a olhar a variedade do mundo, não comungando do ideal de me sentir completa com uma só estação. Há quem consiga, por exemplo, viver apenas com o verão. Esses, enaltecem-lhe as temperaturas altas, os dias longos e luminosos, a vida de esplanada e a cerveja bem fresca após um dia de trabalho, os passeios à beira-mar e os mergulhos na praia ao fim do dia, os corpos quase desnudos na leveza da roupa e do calçado com que se vestem a cada novo dia.

Cansada dos dias escaldantes de suor acumulado no rosto, gosto de começar a sentir a pele a arrepiar-se quando a baixa da temperatura anuncia a mudança de estação; de cruzar os braços à frente do corpo como quem ergue uma muralha de proteção contra uma aragem mais fria; de pegar nas abas ainda leves do casaco e apertá-las contra o peito num gesto de aconchego; de puxar a echarpe que me cobre os ombros e enrolá-la até ao pescoço, para travar a entrada da sensação de frio; do simples gesto de caminhar com as mãos metidas nos bolsos, como se dentro deles buscasse o calor com que vou aquecendo o resto do corpo; de começar a sentir o encolher dos dias, cada dia mais pequenos, num convite de regresso a casa mais cedo; de olhar para as árvores que, despidas de folhagem, mostram a rugosidade dos contornos até aí escondidos; de admirar as folhas caídas, em tonalidades de amarelo e vermelho, que rapidamente se acastanham; do restolhar que se solta da pauta dos meus pés quando sobre elas caminho; do cheiro da terra molhada após as primeiras chuvas lhe penetrarem as entranhas; do fumo dos assadores de rua que nos trazem o odor das castanhas, quentinhas e boas, outrora vendidas nos cartuchos das páginas amarelas; da textura da manta com que me enrolo no “choco” do sofá a viajar por entre as personagens de um filme ou de um livro; da dança das labaredas ao som da lenha a crepitar na lareira; da flanela de que são feitos os lençóis que me convidam a ir para a cama antes da hora habitual.

Este é o meu outono, aquele que conheci quando pela primeira vez cheguei a Portugal. Recusa-se a viver na redação da menina que fui, e que, à semelhança de outras, as freiras me obrigaram a decorar. Era igual para todas as alunas da turma - sem cheiros nem cores - feito de palavras vazias de emoções como uma natureza morta.

Neste outono da vida em que me encontro, dou por mim a recordar um tempo sem estações nem andamentos, mas com um rio enorme de curiosidade a correr dentro de mim.