Cardus Edição 136, agosto 2024
As andorinhas é que são rainhas
A voar as linhas da liberdade
Ana Moura, canção As Andorinhas
Seleção de crónicas publicadas semanalmente no jornal Milénio Stadium de Toronto (Canadá)
Julho é o mês a que, por razões diferentes, estão ligados os três homens mais importantes da minha vida: meu pai, meu filho e meu marido. Nesta precisa ordem: aquela em que me chegaram. Disse “por razões diferentes”, porque, se por um lado foi o mês em que perdi meu pai e meu marido, também foi em julho que nasceu o meu filho, tornando-me mãe pela segunda vez. É, por isso, o mês das datas em que morte e vida se conjugam para me lembrar estas duas realidades com as quais temos de viver e conviver desde o dia em que viemos a este mundo.
Esta semana, porém, é a perda de meu marido que está mais presente porque faz nove anos que, de madrugada e num dia igualmente quente como o de hoje, deu o seu último suspiro. Sem despedidas, apagou-se como a chama de uma vela cujo pavio se foi consumindo lentamente até ficar reduzido ao fiapo negro da finitude.
Recordo os fins de tarde em que me pedia para, na cadeira de rodas, o levar para a beira da piscina a fim de assistir ao voo picado das andorinhas que, em revoadas, se atiravam à água. Molhado o bico, voltavam rapidamente a levantar voo, cruzando-se no ar grafitado de movimentos que pareciam previamente ensaiados.
Durante o dia não as sentíamos, mas, àquela hora – a que ele chamava a hora das andorinhas – nasciam de todo o lado para, em ruidosos trinados, fazerem anunciar a sua ruidosa presença e nos lembrarem que eram nossas hóspedes durante uns meses.
Ele, de costas para o poente, onde o sol começava a desenhar a diária curva descendente, fixava o espelho de água onde se desenhavam círculos concêntricos de cada vez que nele ao de leve tocavam. Como os que resultam das pedrinhas lançadas por uma criança.
Se o espetáculo na água o fascinava, o mesmo acontecia quando, em movimentos sincopados, retornavam às alturas. Entre dois azuis – o da água e dos céus – era impressionante ver o esvoaçar das asas negras que ganhavam uma proximidade tal, sem nunca se tocarem, como se tivessem radares a impedir que se atropelassem.
No entanto, os acidentes aconteciam: ou porque as mais jovens não dominassem na perfeição as técnicas de voo, ou porque se descuidavam no controlo do tempo entre o tocar da água e o retomar do voo, a verdade é que, algumas vezes, eu encontrava uma ou outra morta à superfície e também na caixa dos “skimmers”.
A hora das andorinhas continua a ser um momento mágico a que nem as visitas que recebo ficam indiferentes. Também elas se surpreendem com este ritual, tomadas da mesma curiosidade com que meu marido o fazia.
As andorinhas são aves migratórias por excelência e, por isso, sempre muito associadas, do ponto de vista iconográfico, à emigração. Como tal, muito presentes na decoração exterior das casas portuguesas a par dos azulejos de caráter religioso.
Durante o inverno não as vemos porque, nos meses mais frios e chuvosos buscam as terras quentes que lhes garantem o sustento. É no início da primavera, e em pleno verão, que as vemos chegar para aqui se reproduzirem, seguindo a mesma rota ano após ano, orientadas pelas mais experientes em viagens anteriores, como se, à semelhança dos humanos, fossem também elas aves de “torna-viagem”.
Nós somos como as andorinhas: rainhas dos mais variados universos interiores, estamos sempre em busca daquele que melhor nos acomode. Até ao dia em que faremos o voo final, do qual já não regressaremos.
Se houvesse a possibilidade de reviver um dos momentos dos dias contados um a um, estou certa de que “a hora das andorinhas” seria um dos eleitos.