Cardus Edição 127, novembro 2023



SELOS, essa coisa admirável!






Ciclo de cacau, café e de cana de açucar


Uma estadia de duas semanas em S. Tomé dá tempo para um filatelista procurar os selos da terra. Começa-se por perguntar onde são os Correios e, duas centenas de metros andados, está-se perante o edifício da CST, a companhia telefónica mais antiga do país. É aqui que funcionam os Correios, o que faz lembrar os tempos antigos em que o Serviço Postal e os Telefones ocupavam o mesmo espaço e eram a mesma companhia. Entra-se e está-se num local limpo e bem arranjado, com muitos guichets de um dos quais veio o sinal para o visitante se aproximar.  Identificado o que se procura segue-se então para um gabinete à parte onde se encontra o material filatélico disponível: apenas blocos, tudo muito antigo, a Filatelia está a saldo em S. Tomé, uma antecipação do que provavelmente vai acontecer em todo o mundo. De entre os blocos, o comprador escolheu meia dúzia dos mais vistosos e destes selecionou o que vai preencher a crónica filatélica deste mês, o bloco cujo tema é "Ciclo de cacau, café e de cana de açúcar" e que está digitalizado no cimo desta página.

Não há informação adicional sobre os selos que estão no bloco. Apenas o que está visível, como sendo o ano 2010 (provavelmente a data de emissão), o valor facial em dobras antigas (há uns dois ou três anos foram retirados três zeros à moeda nacional) e a legenda da imagem estampada sobre o selo. Temos assim três selos sobre o cacau biológico, um sobre o café biológico e dois sobre a cana do açúcar. Admito que estes números estejam ligados à relevância que estes produtos, têm, ou tiveram, na economia de S. Tomé.

Falar do S. Tomé histórico é falar de cacau, café e cana de açúcar. E da transmigração forçada de pessoas da qual resultou uma identidade e uma nacionalidade que hoje se chama de “São Tomense”. E o termo que falta, e que é mais marcante, e onde cabe toda a história de S. Tomé - é a roça.

É difícil falar sobre as roças. É melhor mesmo nem falar. Apenas um pequeno registo pessoal. Visitar uma roça, nomeadamente a roça Agostinho Neto, que fica perto da capital, é deprimente. Deprime a história, deprime a ruína, deprime o guia que faz pela vida. Foi chegar e zarpar na primeira oportunidade.

O ciclo do cacau em S. Tomé já não passa pela roça ou pela grande produção onde é difícil concorrer. Ao que percebo o foco é, agora, na diferenciação. Onde o fator escala já não é determinante. Muitos pequenos produtores e produtos gourmet onde a palavra cotação não penaliza. E a palavra-chave, é o biológico, um termo que vende bem na atualidade e que liga bem com a natureza de S. Tomé. Os números da exportação são pequenos, mas têm vindo a crescer.

Biológico, o tal termo que vai mudar o paradigma do cacau e café em S. Tomé, e que os selos, mesmo abandonados, ajudam a divulgar.