Cardus Edição 124, agosto 2023
Dados técnicos:
Data de emissão: 09.06.2023
Design: Folk Design
As religiões e os nacionalismos, quando exacerbados, estimulam e provocam aquilo que de mais irracional os humanos têm: a intolerância, o uso da força para impor as verdades ou as razões de cada um, a destruição, em suma, aquilo que no seu conjunto é designado como a guerra.
A história das religiões em Portugal é um narrar de situações de alguma tolerância intercaladas com outras de grande violência, algumas que redundaram mesmo em massacres. O livro, editado pelos CTT, em simultâneo com esta emissão filatélica, da autoria de Paulo Mendes Pinto, um professor da Universidade Lusófona que se tem dedicado à ciência da religião, descreve de uma forma simples e direta, muito do que se tem passado em Portugal em termos religiosos. Os textos são curtos, como hoje é recomendável, lêem-se muito bem, e o livro está profusamente ilustrado, como é hábito nas edições dos CTT.
A história das religiões é também a história da arquitetura religiosa. Os templos que cada uma vai erigindo, tanto mais altos e ricos quanto a fé e o dinheiro permitem, são a parte material visível que perdura para lá dos tempos e da própria religião. Também esta parte é ricamente contemplada nesta emissão filatélica dos CTT e no respetivo livro.
São sete as religiões que os CTT visibilizam nesta série, tendo emitido um selo para cada. Neste pode ver-se o símbolo religioso e uma imagem arquitetónica representativa da religião. Reproduz-se a seguir os selos da série, acrescidos de notas pessoais, muitas delas com a ajuda do livro de Paulo Mendes Pinto
A imagem escolhida pelos CTT para representar esta religião é, como não podia deixar de ser, o Santuário de Fátima, com A Cruz Alta, de Robert Schad, em grande plano. 80% da população portuguesa é católica, assim dizem os censos de 2021. É um número que, pelo seu valor, carateriza, de certa maneira, a sociedade portuguesa. A igreja (católica) é uma presença constante no dia a dia português, agrega pessoas e grupos, quase todos os rituais da vida são realizados por ela, do nascimento até à morte. Mesmo quem não seja praticante ou crente, sente-se obrigado, por razões de sociedade e solidariedade, a tomar parte nestes rituais. Há também de referir que para além da parte religiosa a igreja tem ainda uma componente social muito ativa e importante, nomeadamente no auxílio às pessoas de menos recursos.
O Tabernáculo Batista do Porto encontra-se na rotunda da Boavista e é a Igreja Batista mais antiga do país. A sua construção foi financiada pelo comerciante inglês Joseph C. Jones (ligado ao comércio do vinho do Porto) com algumas contribuições de crentes e amigos. Tem uma arquitetura similar à do Tabernáculo Metropolitano de Londres. Os Protestantes representam 2,12% das confissões religiosas em Portugal.
O interior da Sinagoga Shaare Tikvah de Lisboa, situada na rua Alexandre Herculano, foi a imagem arquitetónica escolhida pelos CTT para representar o Judaísmo. O projeto da Sinagoga foi da autoria do arquiteto Miguel Ventura Terra, tendo sido construída dentro de um quintal pois, à época, apenas a religião católica tinha permissão para construir templos com a fachada para a rua. Um prédio à frente da Sinagoga, do mesmo arquiteto, escondia, ainda, de certa forma, a fachada do templo judeu.
Se há um povo que foi perseguido e mesmo massacrado, em Portugal, com suporte nas suas convicções religiosas, esse povo foi, seguramente, o judeu. Há pedidos de desculpas oficiais e facilidades de obtenção da nacionalidade portuguesa a judeus sefarditas, mas de acordo com o censo mais recente o número de confissões desta religião é ainda bastante reduzido (0,03%).
A comunidade muçulmana portuguesa cresceu bastante a partir do fim do período colonial, atualmente com uma representatividade de 0,41%. A mesquita central de Lisboa, próxima da praça de Espanha, é nitidamente o espaço arquitetónico que mais visibilidade dá a esta religião. De notar que é um espaço conotado com a tolerância e respeito entre religiões, a mesquita tem sido palco de diversas iniciativas (com apoio oficial) sobre este tema.
Sua Alteza O Aga Khan é o chefe supremo desta religião. É um líder com muitas ligações a Portugal, é aqui que se encontra a sede mundial do Imamat Ismaili, a entidade supra desta religião. No selo pode ver-se um pormenor do Centro Ismaili de Lisboa, o lugar de culto nesta cidade. O templo é uma bela obra de arquitetura, foi desenhado pelos arquitetos Raj Rewal e Frederico Valsassina, escolhidos através de um concurso internacional. Situado na zona das Laranjeiras, o centro está cercado por algumas barreiras visuais que lhe conferem uma certa discrição e convidam ao recolhimento.
Segundo “A RTP ensina” o Hinduísmo é uma religião e uma filosofia de vida. Esta religião aparece em Portugal com a descolonização, sendo os seus membros originários principalmente de Moçambique e da antiga Índia Portuguesa. A comunidade tem aumentado também com a recente imigração nomeadamente de nepaleses. O lugar de culto para esta confissão religiosa, em Lisboa, é o templo Radha-Krishna do qual o selo apresenta um pormenor. O templo fica em Telheiras e está integrado num complexo que inclui ainda um salão de festas, uma biblioteca, uma escola e outros serviços e, ainda, um restaurante com a particularidade de ser vegetariano, caraterística muito própria da comunidade Hindu. As estatísticas dizem que existem cerca de 15000 membros desta comunidade em Portugal.
O texto que se segue é extraído diretamente da “RTP ensina”, numa lição sobre o “Budismo em Portugal”:
O Budismo não é uma religião que, à semelhança de outras, tem um Deus criador, mas também não é apenas uma filosofia de vida. Transmite um conjunto de ensinamentos, conhecidos como Dharma, que defendem o bem, combatem o mal e ajudam a cultivar a mente.
São fundamentos morais e éticos, transmitidos pelo Buda Shakyamuni há cerca de 2500 anos, e que têm como objetivo último livrar os seus seguidores do sofrimento, dando-lhes paz interior e felicidade.
Como cada um tem uma forma diferente de alcançar a felicidade ou nirvana, não existem métodos ou caminhos únicos para alcançar esse estado. Há várias escolas que ensinam os caminhos de Buda, mas todas salientam que é individualmente que se faz esse percurso.
0,19% da população portuguesa declarou-se, nos censos de 2021, como sendo budista. A imagem do selo é da primeira Stupa construída em Portugal situada no Algarve.
Feitas as contas, constata-se que as religiões não católicas, todas somadas, não chegam aos 5% da população portuguesa. Contando com os 80% da omnipresente igreja católica onde estão, então, os 15% em falta? Pois, muito simples, na parte dos que não professam ou não acreditam na religião (entendida como vida para além da morte), os chamados agnósticos e ateus, como alguém me disse um dia, a “religião” que mais cresce no mundo.