Cardus Edição 118, fevereiro 2023

Filatelia
(Edmundo Cardeira)



SELOS, essa coisa admirável!


Para comemorar os 100 anos da descoberta da tumba de Tutancamon pelo arqueologista inglês Howard Carter, os correios britânicos emitiram esta série de oito selos, bem como outros produtos filatélicos associados ao evento.

É com base na documentação associada à emissão que produzo este resumo que, ao mesmo tempo que divulga a série, nos leva para o Egito de há mais de três mil e trezentos anos.

Dados técnicos:
Data de emissão: 24.11.2022
Designer:Andy Altmann



TUTANCAMON


Estávamos em 1922, em novembro, quando Howard Carter espreitou por um pequeno furo feito na câmara selada da tumba de Tutancamon. Demorou algum tempo a acostumar a vista à escuridão e depois, lentamente, foi-se apercebendo da riqueza que tinha pela frente: uma cave com quatro divisões básicas cheia de estátuas, animais esquisitos, comida, vinho, roupas, joias, móveis e principalmente ouro, muito ouro. Toda esta riqueza tinha estado em repouso por mais de três mil anos, tal como o sarcófago do faraó, cuja múmia estava envolvida por seis caixões, o último dos quais também feito de ouro.

Passaram-se três anos até o último caixão ser aberto e é, então, que aparece a famosa máscara de ouro que cobria a cara do faraó e a múmia deste vê novamente a luz do dia. Limpar, documentar, estudar e conservar os mais de 5000 objetos encontrados na tumba foi um trabalho que levou dez anos, realizado por uma equipa de peritos internacionais. Desta vez, este património não foi desviado para museus de potências colonizadoras, está todo no museu do Cairo, apenas a documentação está fora, está arquivada no Griffith Institute, o centro de egiptologia da Universidade de Oxford.

Os selos desta série recordam-nos oito dos objetos encontrados, presumo que os mais conhecidos ou divulgados.



Cabeça do Rei

Esta peça de madeira foi encontrada nos escombros do corredor de entrada. Como é que ela aparece aqui, existem algumas explicações, umas relacionadas com crenças, outras talvez mais realistas, como a que diz que foi atirada para ali depois de ter sido aliviada dos brincos por assaltantes de túmulos. Note-se que as orelhas estão perfuradas.



Leque

Foram encontrados oito leques na tumba do faraó. O selo apresenta um deles, encontrado entre dois mausoléus da câmara funerária. As penas que equipavam os leques não resistiram aos três mil anos e desapareceram. O leque está ricamente decorado, algures tem escrito o nome do rei.



Máscara de Ouro

A máscara de Tutancamon é o objeto mais icónico da tumba, neste momento o objeto histórico mais viajado pelo mundo. Até outubro de 1925, ou seja, por mais de três milénios, protegeu a cabeça do faraó, e assim continuaria por mais milhares ou milhões, não fora humanos vivos terem-lhe interrompido a tarefa. Protegia a cabeça, o pescoço e a parte superior do tórax do rei. O rosto é um retrato idealizado do jovem faraó. A máscara é feita de ouro puro com incrustações de vidro azul e pedras semipreciosas.



Falcão

Este falcão foi encontrado dentro de uma caixa na câmara do tesouro. É um colar em ouro incrustado de pedras preciosas e vidro colorido. Está carregado de símbolos, um dos quais, o da vida eterna, é representado pela cruz Ankh, que o falcão segura com as garras.



Leão

Esta cabeça de leão pertence ao braço de apoio de um dos três sofás dourados encontrados na tumba. Marcantes na figura são os olhos e o nariz feitos de cristal e vidro azul.



Trono de Ouro

A imagem do selo encontra-se nas costas do chamado trono de ouro. Para o financiador da operação trata-se da peça mais importante de todo o espólio. O trono é feito de madeira dourada revestida com folhas de ouro no assento e nas costas. Milhares de incrustações de vidro colorido, lápis-lazúli e outros materiais, compõem nas costas um quadro do qual a imagem do selo é apenas uma pequena parte.



Barco

Encontrado na câmara quatro, este modelo de barco é feito de calcite decorado com ouro, marfim, faiança e pigmentos coloridos. Provavelmente uma recordação de algum passeio de barco do faraó, quando vivo, pelo Nilo.



Guardas

Duas estátuas, colocadas uma em frente da outra, guardavam a porta selada que dava acesso ao túmulo do faraó. Têm um tamanho real e foram feitas com madeira escurecida com alguns detalhes em dourado.


É corrente ouvir-se dizer que a única coisa que temos certa na vida é a morte. E toca a todos, grandes ou pequenos, reis ou plebeus. A dúvida é o que se passa depois dela. Quem sepultou Tutamcamon acreditava que ele, talvez por ser um Deus, continuaria a viver algures ou reencarnar em algum corpo tempos depois. Estranho porque o trancaram bem no sarcófago e a comida que lhe deixaram não dava seguramente para muito tempo. Não se evoluiu muito nesta matéria, ainda hoje há muitas certezas e incertezas, para não dizer outra coisa, sobre o que vem a seguir. A ciência apenas sabe o que se segue ao corpo, isto é, à matéria de que fomos feitos. Quanto ao imaterial, o conhecimento científico é zero. Como ser pensante, do imaterial, apenas me apercebo da consciência, onde vamos gravando a apagando o que vivemos. E penso que, no tal dia fatídico, toda esta memória se apaga definitivamente e voltamos ao lugar de onde saímos: o nada.