Cardus Edição 128, dezembro 2023

POESIA

MANUEL ANTÓNIO PINA

Seleção e notas de
Raul Leal Gaião



MANUEL ANTÓNIO PINA - (Sabugal, 1943 – Porto, 2012). Escritor, jornalista, tradutor, professor e cronista. Entre outros, foi-lhe atribuído o Prémio Camões em 2011.  Percorreu os diversos géneros da literatura: poesia, literatura infanto-juvenil, ficção, novelas, textos dramáticos, crónica e ensaios. Autor de guiões para séries de ficção, foram algumas das suas obras adaptadas ao cinema. Dotado de grande sentido crítico e de humor, é um excelente contador de histórias. Refletindo sobre a linguagem, interroga a própria poesia, a sua origem e história, e questiona o ofício de escritor que se vê confrontado entre o silêncio, por ter a perceção de tudo já ter sido dito, e a necessidade de o poeta não se calar, ficando sempre a sua linguagem aquém do que nela se quer dizer.

Algumas das suas obras:  Nenhum Sítio (1984), O Caminho de Casa (1988), Um Sítio Onde pousar a Cabeça (1991), Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança (1999), Poesia Reunida 1974-2001 (2001), Os Livros (2003), Todas as Palavras - Poesia Reunida 1974-2012 (2012) [poesia]; O País das Pessoas de Pernas para o Ar (1973), O Têpluquê (1976), Os Piratas (1986), O Meu Rio é de Ouro (1995), Uma Viagem Fantástica (1996), O Pequeno Livro de Desmatemática (2001) [literatura infantil] ; …




Todas as Palavras

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?),
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.

 

Junto à água


Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.

Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
ascenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos,
onde o meu coração, falando, vagueia.

(Manuel António Pina, Todas as Palavras, Assírio & Alvim, 2012)