Cardus Edição 126, outubro 2023

POESIA

Natália Correia

Seleção e notas de
Raul Leal Gaião


NATÁLIA CORREIA (S. Miguel, Açores, 1923 – Lisboa, 1993) – Conciliou criação literária, intervenção política e jornalismo. Na criação literária, próxima do movimento surrealista, cultivou diversos géneros: poesia, romance, dramaturgia e ensaios. Empenhada, mas nunca conformada, irreverente e sarcástica, tomou parte ativa nos movimentos de oposição antifascista, da despenalização do aborto e da defesa da cultura; a sua fúria verbal, enquanto deputada, fazia estremecer as bancadas da Assembleia. Cultora do amor, da liberdade no amor e do erotismo, organizou a poesia maldita dos nossos poetas na Antologia da Poesia Erótica e Satírica, sendo acusada e condenada por indecência e atentado contra a moral pública. Provocadora, de palavra escaldante e corrosiva. Permanentemente ligada aos Açores numa memória profunda, nasceu, viveu e morreu açoriana. Algumas das suas obras: Passaporte (1958); Mátria (1968); As Maçãs de Orestes (1970); Sonetos Românticos (1991); O Sol das Noites e o Luar dos Dias (1993) – (poesia reunida) …




Auto-retrato


Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

(Natália Correia, Poesia Completa, Publicações Dom Quixote, 1999)




Quanto Mais Amada Mais Desisto

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

(Natália Correia, Poesia Completa, Publicações Dom Quixote, 1999)