Cardus Edição 125, setembro 2023
Seleção e notas de
Raul Leal Gaião
MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS - (Lisboa, 1923 - Lisboa, 2006), poeta, autor dramático, crítico, ensaísta, tradutor e artista plástico português. Na vida como na arte foi um provocador e um insubmisso permanente, afirmando sempre a rebeldia perante os convencionalismos sociais. Figura do surrealismo português, neste movimento viu “um convite à poesia, ao amor, à liberdade e à imaginação pessoal”. Inovador na poesia, ousado nos temas, audacioso na linguagem, recorreu aos processos característicos do surrealismo: “enumerações caóticas, utilização do humor negro, o automatismo da escrita, trocadilhos e outros jogos verbais, …”.
Algumas das suas obras: “Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano” (1952); “Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos” (1953); “Manual de Prestidigitação” (1956); “Nobilíssima Visão” (1959); “As Mãos na Água e a Cabeça no Mar” (1972); (…)
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
(Mário Cesariny, Pena Capital, Assírio & Alvim, 2021)
Hoje soube-se uma coisa extraordinária,
que morreste; talvez já to tenham dito,
embora o caso verdadeiramente não
te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo.
Algo, de facto, deve ter acontecido,
porque nada acontece, a não ser o costume,
amor e estrume, quanto ao resto
tudo prossegue de acordo com o Plano.
Há apenas agora um buraco aqui,
não sei onde, uma espécie de
falta de alguma coisa insolente e amável,
de qualquer modo, aliás, altamente improvável.
Depois, de gato para baixo, mortos
(lembrei-me disto de repente,
agora que voltaste malevolamente a ti)
estamos todos. A gente vê-se um dia destes por Aí.
(Manuel António Pina, Todas as Palavras, Assírio & Alvim, 2012)