Cardus Edição 124, agosto 2023

POESIA

(dois poemas em agosto)

Seleção e notas de
Raul Leal Gaião


JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES – (Porto – 1967), médico, poeta e tradutor. Prémio PESSOA, 2022. A sua poesia incide sobre os objetos quotidianos, a presença das coisas, testemunhando a presença humana ao longo dos tempos, recorrendo mesmo ao banal para o converter em poesia. Poesia dos espaços e paisagens, alargando-se progressivamente a espaços mais amplos, marcados por um tempo frágil e efémero, com um olhar de contenção e exatidão, numa linguagem sem ornamentos, perpassando uma certa melancolia ponteada de ironia e humor.  Na organização do verso escapa ao estabelecido, “as linhas do poema não coincidem com a sintaxe das frases”, com uma rítmica e métrica desconcertante na procura de novas sonoridades.

Destacamos algumas das suas obras: “Poesia Reunida” (2011); “Mediterrâneo” (2016); “Nómada” (2018); “O Tempo Avança por Sílabas” (2019); “Movimento” (2020); “Poesia Reunida” (2023); (…);

(Notas a partir de “Escrever: expandir-se” de Eucanaã Ferraz)




Mecânica de um abraço


“How long shall I hold this hug”
TESS GALLAGHER

O que encerras num abraço quando
abraças alguém não é
um corpo: é tempo. Nesse demorar suspenso
(enquanto deténs outra vida) há
um corpo que é teu enquanto o reténs
nos braços
(porquanto o tens para ti
suspendendo o movimento)
enquanto paras o tempo pelo
tempo
de um abraço. Mas a
força dos teus braços é mais fraca do
que a do tempo e
tens de ser tu a ceder
(tens de ser tu a largar) porque
o tempo não aceita estar parado tanto tempo e
exige que o soltes para
tornar ao movimento.



carpe diem


It is time the stone made an effort to flower
PAUL CELAN



O incêndio

Alguém tem de amar
o banal. Alguém tem de tratar disso. Os
rostos que passam idênticos
como os pombos de uma praça.  A mala
qua apenas fecha se alguém
se senta em cima. Insectos suicidando-se
contra o brilho dos faróis. O apetite
da ferrugem
nos portões da avenida. Alguém tem de amar o vulgar (falar
do que é
ordinário). O cheiro a peixe frito que
sobe desde a cozinha. As luas que nascem dos
dedos quando
se roem as unhas. Alguém tem de amar
o que é feio
(trazê-lo para o poema). Só assim
por entre o impuro pode o
incêndio acontecer.


(João Luís Barreto Guimarães, “Poesia Reunida”, Quetzal, 2023)