Cardus Edição 126, outubro 2023
Os “Gabinetes de Curiosidades” ou “Quartos das Maravilhas” era como se designavam os lugares onde, durante a época das grandes explorações e descobrimentos dos séculos XVI e XVII, se colecionavam objetos raros ou estranhos.
Os objetos selecionados, abrangiam diversas ciências, nomeadamente biologia, geologia, etnografia, arqueologia, relíquias religiosas ou históricas, obras de arte e antiguidades.
Normalmente eram espaços criados por nobres curiosos, ricos comerciantes, artistas e estudiosos para juntar, interpretar e exibir os objetos coletados de outras culturas, de outros continentes e, podem hoje, ser considerados os primórdios dos museus modernos.
Estes lugares mágicos ainda persistem e muitos foram musealizados. Em 2022, inaugurou no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra um “Gabinete das Curiosidades” inspirado nestes míticos espaços, onde os visitantes podem vivenciar uma experiência imersiva que os transporta para os ambientes dos séculos XVII e XVIII. Este “Gabinete” foi criado com a intenção de despertar a curiosidade dos visitantes, sobre a magnifica coleção de História Natural e Ciência da Universidade de Coimbra.
A MINHA MÃE
Cresci num ambiente de “Gabinete de Curiosidades”, pois a minha mãe tinha um enorme fascínio por obras de arte e antiguidades. Muitas vezes, desconhecia a sua proveniência ou a sua utilização, pois as peças eram adquiridas e expostas, simplesmente por serem esteticamente belas. O impulso para acumular raridades era tal, que provocava uma excessiva ocupação dos interiores da nossa casa, dificultando a própria circulação entre espaços. Esta “coleção”, implicava uma disponibilidade financeira que obrigava a fazer opções, que não raras vezes, deixava para trás outras prioridades familiares, facto que nunca impediu a minha mãe de continuar, de uma forma compulsiva, a sua coleção, o seu acervo.
O MEU PERCURSO
Embora sem ter a obsessão da minha mãe nem a sua disponibilidade financeira, sempre comprei, recuperei e colecionei peças que me despertavam a atenção ou que considerava simplesmente belas para fazerem parte do meu espaço e do meu dia a dia.
Perdia-me nas galerias de arte, nos antiquários e em alguns “caixotes do lixo”.
Tendo trabalhado nos CTT, por mais de 30 anos, doía-me ver, nas remodelações das estações de correio, a quantidade de belo acervo, considerado obsoleto, velho, sem préstimo para os novos espaços e que acabava, invariavelmente, no lixo. Recolhi e conservei no meu gabinete, que era considerado pelos meus colegas como um “gabinete de curiosidades”, inúmeras peças que podem contar algumas histórias sobre os CTT.
Quando me reformei, colocou-se a questão do que fazer com as “velharias” que fui acumulando. O destino, segundo me informaram internamente, seria o lixo, na medida em que os novos gabinetes não tinham espaço para este tipo de excentricidades.
DOAÇÃO AO MUSEU
Contei esta minha história a responsáveis do Museu das Comunicações, convidei-os a visitar o meu pequeno “museu” e, eventualmente, identificar peças que não tivessem no seu acervo, mostrando-me totalmente disponível para as ceder. Destas peças, que recolhi ao longo de anos, identificaram e escolheram várias com interesse museológico, tendo sido elaborado o respetivo “auto de cedência” e a consequente doação ao Museu.
Passados algumas semanas, visitei novamente o Museu das Comunicações, que fica na Rua do Instituto Industrial 16, em Lisboa, perto do Cais do Sodré, um belo espaço museológico de visita obrigatória, constatando que, pelo menos três das “minhas peças”, tinham passado a fazer parte da sua exposição permanente.
Fiquei contente e orgulhoso por ter preservado estas relíquias que, expostas no Museu, passaram a ter uma nova função e contribuem agora para contar a todos os visitantes a História da instituição.
ALGUMAS PEÇAS CEDIDAS AO MUSEU DAS COMUNICAÇÕES
1 - Escarrador do princípio século XX
Era uma das peças mais raras que evitei que fosse transportada para o entulho na sequência de uma obra numa estação de correios. Um escarrador, escarradeira, cuspidor ou cuspideira, era um objeto obrigatório nos locais públicos numa tentativa de terminar com o costume de cuspir para o chão e da propagação da bactéria da tuberculose. Num edital do Governador Civil de Lisboa de 1902, proibia-se o escarrar ou cuspir fora dos escarradores próprios, sob pena de 500 réis de multa.
Quando explicava aos meus colegas, que me visitavam no gabinete dos CCT, qual a função da referida peça, era frequentemente rejeitada, porque consideravam que ainda poderia ter problemas higiénicos.
2 - Máquina de vender postais
Antes da mecanização dos CTT, era frequente cruzarmo-nos com máquinas de vender selos que estavam nas entradas das estações de correio, mas mais rara era a “Máquina de vender Postais”, que não existia no espólio do Museu das Comunicações.
Esta máquina, fez-me companhia ao longo de décadas nos Correios. Como era muito pesada e eu mudava várias vezes de funções e de local de trabalho, em vez de a afixar na parede com parafusos encontrei uma solução habilidosa e prática: colocar uns arames na traseira da máquina para mais facilmente a poder colocar, presa por um simples parafuso, na parede dos gabinetes.
GABINETES DE CURIOSIDADES
Ao longo da minha vida, e seguindo o exemplo da minha mãe, vivi sempre rodeado por objetos -mobiliário, pintura, escultura, artesanato popular ou, entre outras, peças consideradas obsoletas com interesse museológico quer nos locais onde trabalhei, quer na minha casa.
Todos nós recolhemos, ao longo da vida, uma grande variedade de objetos e artefactos com valor financeiro ou sentimental, através dos quais projetamos, construímos e contamos histórias sobre os nossos percursos e sobre a nossa própria existência. Todos, de alguma forma, temos um “gabinete de curiosidades”.
Deixo a última sugestão: se consideramos que esse acervo possa ter algum interesse museológico, pensemos na hipótese de o ceder a uma instituição museológica. Será a garantia que estará ao alcance de todos e que se perpetuará no tempo, cumprindo a sua função social.
António Acciaioli Campos