Cardus Edição 119, março 2023
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem por que ama, nem o que é amar...
Alberto Caeiro
Sobre espaços museológicos há uma pertinente pergunta que podemos e devemos colocar: o que é um Museu e para que serve?
Esta e outras perguntas têm motivado muitas discussões no meio museal, bem como promovido inúmeras teses de mestrado e doutoramento em museologia.
O arqueólogo Luís Raposo, especialista em Museologia, tem escrito muitos artigos, nomeadamente no jornal PUBLICO, sobre esta temática e refere que:
«os museus não são assim tão importantes. O importante é a vida, a felicidade, e, se falamos de dimensão social, o importante é a capacitação libertadora do povo…»
Mas também afirma que:
«estes objetivos podem alcançar-se sem recurso ao museu… e mesmo no plano da cultura: por associações, grupos de teatro, cineclubes, centros culturais, bibliotecas, etc.»
Mas realça que:
«a haver museu, ele deve ser museu, quer dizer, deve possuir: os acervos e os saberes que lhe são próprios»
Resumindo, um museu deve cumprir as suas funções específicas - estudar, conservar e divulgar coleções, bem como, enriquecer o seu acervo.
Os museus sem visitantes, sem utentes, sem clientes, não cumprem as suas funções primordiais e como tal, serão apenas armazéns de peças. Espaços vazios de emoção e relação.
Há um grande esforço e trabalho que todos têm que fazer para aumentar o número de visitantes nos museus:
Há dias li um texto de um transmontano de nome Jorge Costa, que interpelava os seus conterrâneos:
“Estimado transmontano: há quanto tempo não visita o Museu Abade de Baçal?”
Pareceu-me uma boa pergunta, mas continuava:
“Segundo dados disponíveis em 2022 o referido Museu recebeu somente 9.869 visitantes e… depois comparava com o Museu Alberto Sampaio em Guimarães com mais de 68.000 visitantes e o Museu dos Biscainhos em Braga com quase 57.000 visitantes”.
De facto, um Museu com somente 9.869 entradas num ano, que significa pouco mais de 30 visitantes por dia, é um valor muito diminuto.
Se tivermos em consideração que Trás-os-Montes tem mais de 100.000 habitantes e que alguns dos visitantes referidos não habitam nesta zona do país, estamos na presença de valores que devem envergonhar as autoridades museológicas.
Os museus têm que identificar as razões deste divórcio, arregaçar mangas e trabalhar, sair para o terreno, ir às escolas, aos centros de dia, às coletividades de forma a cativar os diferentes públicos para terem orgulho e curiosidade em conhecer o seu património que está nos museus.
Em relação a nós, cidadãos comuns, temos que ter uma nova postura cívica, é importante termos na nossa agenda a visita a espaços museológicos, levando aos museus os nossos filhos, os nossos familiares, os nossos amigos!
Consumir cultura torna-nos mais fortes e visitar Museus faz bem à saúde!
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Casimiro de Abreu (poeta brasileiro)
António Acciaioli Campos