Cardus Edição 117, janeiro 2023


VISITAR MUSEUS FAZ BEM À SAÚDE…

António Acciaioli Campos

Nota: texto elaborado com base na rubrica diária que o autor mantém na Rádio Amália: “Sei de um rio, sei de um Museu.”



Património


Grito Negro

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

José Craveirinha

Nos últimos meses proliferaram nas notícias internacionais e nacionais, várias polémicas acerca da restituição de obras de arte.

O Museu Britânico está em negociações adiantadas, com o governo grego, para finalmente devolver os Mármores do Pártenon. O Governo francês devolveu quatro obras roubadas por nazis a herdeiros de um famoso empresário judeu. A Bélgica devolveu à República Democrática do Congo, o primeiro de cerca de 84.000 artefactos, saqueados durante a era colonial. A máscara cerimonial chamada Kakungu, parte do acervo Museu Real da África Central, na cidade belga de Tervure, passará a ser exibida no Museu Nacional congolês.

No princípio do século XIX, Portugal sofreu três invasões francesas – o nosso país foi ocupado pelo exército francês durante vários anos. Nesse período, os invasores despojaram museus, palácios, bibliotecas e outros locais, levando para França muito do nosso riquíssimo património. Não existe um inventário completo de tudo o que foi levado, mas alguns importantes e belos artefactos nacionais, integram hoje as coleções do Museu de Belas Artes de Lyon, do Museu Nacional de História Natural francês ou do Museu do Louvre.

Imaginemos que a primeira versão dos “Os Lusíadas” impressa em 1572, tinha sido levada pelos franceses. Que diríamos? Que era Património de Nacional e que deveria ser, de imediato devolvida.

Hoje, a discussão da devolução de obras que foram saqueadas em variados locais, entrou na nossa agenda. É um tema complexo que exige uma análise conjunta entre os diferentes países, sobre qual a importância destes acervos para o património desses povos e que levanta inúmeras questões delicadas sobre como é que esses acervos foram adquiridos, bem como, a atual proteção e segurança das peças, ou a criação de condições para a sua devolução aos locais e instituições de origem.

Não é um tema fácil de discutir, mas o importante é, sem fundamentalismos nem atitudes definitivas, ouvirmos os argumentos de todas as partes e agirmos em conjunto para o bem do património dos diferentes países.

António Acciaioli Campos