Cardus Edição 127, novembro 2023

Malisca



A MILA


Tem vinte e oito anos e quatro filhos, às seis da manhã já está aprumada para fazer os pequenos-almoços no hotel onde trabalha a troco de um salário a rondar o equivalente a 100 euros mensais.  Se se portar bem terá um bónus de 300 dobras (12 euros) diz o patrão.

Contrariamente aos desejos da maioria, não quer sair da ilha, é na roça comunitária onde vive que o sol a abraça e a chuva lhe rega as bananeiras e os mamoeiros. Não conhece outras realidades, sabe que o mundo é muito grande, mas é aqui que se sente segura.

Levantar-se de madrugada, sentar-se no carro táxi à espera de que todos os lugares fiquem preenchidos para o motorista iniciar viagem até à cidade, a cerca de 15 km, é um cenário normal para si.

É assim todos os dias, não existem transportes públicos. Também não há água canalizada, não há esgotos, nem há recolha de lixo. A roupa lava-a à mão no rio, juntamente com os outros e gosta de ver o painel colorido a estender-se pelas margens, desenhado pelas variadíssimas tonalidades das peças a secar nas pedras quentes em dias soalheiros.

Não se lembra dos colonos, só sabe as histórias que a avó lhe conta.

A luta pela vida esgota-a no trabalho e na resiliência. Aprendeu a esperar. Para ela as conquistas são sinónimo de tempo e de espera. Está a construir a sua casinha, já tem os pilares que a levantam três metros do chão e as divisórias dos quartos. Já conseguiu o telhado de zinco para a chuva não apodrecer a madeira enquanto junta as dobras, que vai poupando, para comprar o material que falta. E ainda falta muito, pelas contas, são 1800 dobras para cada lateral, são quatro e ainda só tem para uma. Depois, a madeira para fechar as divisórias, as portas e janelas. Lá em cima é só para dormir. A cozinha vai ficar por baixo da casa, onde pretende colocar a bancada com bancos corridos que já tem. Tudo aberto. No cantinho do terreno, cerca de 80 m2 ao todo, quer também fazer uma casa de banho, vai conseguir trazer água do rio, que passa mesmo ao lado, através de uma ligação aos canos que já existem, por ora vai buscá-la ao chafariz da aldeia, com baldes e bidons. A água potável tem de a ir buscar mais longe, a pé e, nos dias de chuva, a lama não dá tréguas, mas é assim, já está habituada.

Enquanto espera pelo seu abrigo, vive na casa da mãe com o filho mais pequeno. Por agora está sozinha, o pai dos filhos mais velhos foi para Londres com outra mulher e levou-os. O dos mais novos também já tem outra mulher e foram viver para a cidade. Mas não tem a alma em desassossego, acredita ser o melhor para eles.

É devota da nossa senhora de Guadalupe, vai continuar a protegê-la.

Tem a certeza!