Cardus Edição 126, outubro 2023
Tinha dezanove anos e o mundo por descobrir.
Deixou o Kimbo e veio para a cidade estudar. Eram precisas ferramentas para segurar o futuro.
Mas não estava preparada para aquela mudança.
Toda a sua vida se tinha colorido naquele meio envolto de usanças peculiares que lhe aprisionaram a alma e o coração. Entre muitos outros pequenos nadas, estava habituada a ver as crianças a dormitar, escondidas pelas kangas, nas costas das mães, quitandeiras de sorriso aberto e cigarro aceso preso nos lábios, virado ao contrário, sem nunca se queimarem. Também a molenguice das tardes quentes, comandada pelo calor, habitualmente traçava os ziguezagues do vai e vem que fazia juntamente com as gentes das sanzalas. E o som da batucada, orquestrada pelos ventos a esgrimir as águas do rio, convencia-a da pouca importância de instrumentos sofisticados para ritmar a ginga e o saracoteio das danças costumeiras. Os caminhos longos sempre os trilhou de braço dado com as mulembas, gordas de sombra e guarida. Conhecia todos os cantos da sua aldeia.
E, por isso, estranhou todo aquele entrançado de novidades que agora começava a lobrigar, assim que chegou à capital. Não percebia a azáfama constante dos andantes, para lá e para cá, sem paragens, nem descanso. Nem entendia a pressa de chegarem a cada esquina daquele mundo tão grande e tão vazio.
Sem se aperceber, os seus olhos ansiavam por encontrar qualquer vestígio de afeto, simples e puro como os que sentia nas zungueiras da sua terra, com as suas quindas à cabeça, feitas de sisal de muitas cores, alegrando as ruas, a vender paracuca de ginguba. Em vez disso, mulheres e homens, muitos com ar suspeito, atropelavam-se numa correria para chegar ao destino. Muitas lojas de comércio, de aspeto macilento e com cheiro forte a benzeno e formaldeído, exalado do plástico, ostentavam as bagatelas importadas da China: relógios, óculos de sol, sapatos, roupas, brinquedos, roupas, utensílios domésticos e muitas, muitas bugigangas.
Em vez de trilhos, ruas alcatroadas, totalmente preenchidas por filas intermináveis de motas, bicicletas e carros, com gente zangada a descarregar os contratempos nas buzinas que gritavam em uníssono.
Uma cidade desordenada, longe de todos e de tudo o que sempre habitou o seu coração. Sente-se perdida numa selva de pedra.
Chora, entristece, fica engolida pelo desânimo, mas não pode desistir. Do outro lado, para além de tudo o que a chama, há muita pobreza e infortúnio.
É preciso aprender para depois praticar, quer salvar as crianças dos costumes traiçoeiros, da falta de escola e das muitas mazelas como a febre tifóide, o paludismo, a cólera ou o raquitismo.
Precisa de acreditar que é capaz, que o ser humano tem uma grande capacidade de adaptação e que o ditado “não te ponha deus à prova do que és capaz de suportar” é verdade!
Fala consigo todos os dias, ao deitar e ao acordar.
Mentaliza-se que tudo consegue.
Dá uma volta sobre si mesma, como se fizesse o pino. E vai em frente. Segue caminho, sem parar.
Durante cinco anos, intensos, agarra todas as chaves que precisa para abrir as gaiolas e os alçapões que lhe poderão surgir pela frente.
Está de volta, vem determinada em erguer os alicerces que lhe permitirão concretizar os objetivos que traçou para a sua vida.
Começa por juntar esforços e sincronizar as mais valias da terra. Faz reuniões comunitárias com as mulheres e lança as sementes da entreajuda e cooperativismo que as vai ajudar na promoção da autossuficiência. Consegue promover o artesanato e o pequeno comércio. Funda um centro de formação centrado em diversas áreas, criando, desta forma, oportunidades para os jovens desenvolverem as suas competências, garantirem o seu futuro e contribuírem para o desenvolvimento local.
Não conseguiu curar todas as doenças das crianças, mas ajudou na mitigação da mortalidade infantil. Também não conseguiu mudar todas as tradições penalizadoras da saúde física e psicológica, mas na sua aldeia já não se pratica a mutilação genital e não se realizam casamentos de meninas com idade infantil ou adolescente.
Esta é a história de uma mulher inspiradora, que não deixou nome na História, mas deixou muitas histórias de resiliência, trabalho e empenho, como muitas outras mulheres africanas que lutaram e lutam pelas suas gentes.