Cardus Edição 123, julho 2023

Malisca



Nómadas Digitais


De Basileia a Granada são cerca de 2000 Km. Metade num dia, metade no outro, seria uma viagem de carro agradável e descomplicada. Mas, se aboletarmos no banco da frente dois galguinhos italianos, alcandorados numa pilha de tarecos sobrepostos até ao tejadilho e, no banco de trás, um ovo com uma bebé de oito meses, um saco com fraldas e mudas de roupa, outro com biberões, garrafas de água e latas de leite, mais uma caixa frigorífica de 12 volts com fruta, iogurtes e sopas, mais alguns brinquedos para entreter, mais a avó e a sua carteira, não sobra espaço para granjear o olhar, que é engolido pelas imbambas,  e nem o pensamento se consegue libertar.   

Foi assim a viagem que fizeram, há duas semanas, a bebé, o pai, a avó, e os dois patudos.

Nómada digital, o pai, depois de 3 meses na Suíça, considerou regressar a Espanha, por uma temporada, onde tem casa e onde o custo de vida é muito mais atrativo. Mesmo transportando apenas o essencial, composto por roupas, sapatos, eletrónica e objetos pessoais, o carro vinha atolado de tralha que se distribuía pelo porta-bagagens, pela mala de tejadilho e pelos cantinhos do interior à volta dos bancos e no chão.

Planeado o périplo em 3 etapas, a saída estava marcada para as 2 horas da tarde com chegada ao hotel Ibis, em Montpellier, às 10 da noite. A segunda etapa seria até ao hotel BB, em Valência, antes do anoitecer e, finalmente, no terceiro dia, a tão desejada chegada a casa, pela calmaria da tarde.

Com os atropelos e imprevistos habituais, a saída atrasou 3 horas. Trânsito, muito trânsito, muitos camiões, muito calor, muito choro da bebé e muito cansaço, nada correu como planeado e a hora da chegada ao destino aproximou-se da 1 da manhã. Com as pernas entorpecidas, a avó lá conseguiu sair do cubículo, a transpirar cansaço, depois de pendurar os sacos pelos braços. O pai, a segurar a trela dos cães com uma mão e a filha com a outra, meia a dormir, chispou a caminho do quarto do hotel. Um quarto exíguo, com uma cama de casal para o pai e patudos, uma cama de solteiro para a avó e uma cama de criança para a bebé a atochavam todo o espaço. Esticando um braço tocava-se na cama vizinha, esticando uma perna tocava-se na parede da frente. A janela, um quadrado mal medido, não embuçava a clausura que o quarto instilava. A casa de banho, vestida de plástico, fazia lembrar as das roulottes nos parques de campismo.

O resultado foi uma noite mal dormida, coroada por ramalhetes de mau humor que atravancaram logo o início da segunda etapa da viagem.

Com o pequeno-almoço mal tomado e uma promessa de muito calor, lá se puseram a caminho, embrulhados por temperaturas de 35⁰C. Com a bebé a dormir muito pouco e a chorar muito amiúde, chegaram a Valência por volta das 19h, mais mortos que vivos. Desta vez, o quarto que os aguardava ainda era mais apertado que o anterior, sem lugar para a cama mais pequena que ficou colocada entre a porta de entrada e a porta do WC, obrigando a uma ginástica meticulosa sempre que era preciso sair do quarto ou ir à casa de banho.

A falta de espaço, o calor e o cansaço levaram a família até ao terraço do hotel onde se atiraram para as cadeiras disponíveis com um refresco na mão. Depois de uns minutos, a tentativa de recuperação das forças perdidas foi interrompida pelas melgas, que aguilhoaram pernas e braços, deixando babas de cima a baixo e muita comichão.

A última etapa não se desenhou de formas diferentes. Ao calor juntou-se a chuva e, quando se puseram em marcha, o céu, enfeitiçado de cinzento, almejou granizo e trovoada que cumpriu ao longo do trajeto.

Não chegaram à hora calculada, mas a noite também ainda vinha longe. Descarregar o carro, arrumar as coisas, tratar dos cães e da menina foi obra que não se fez do pé para a mão. Uma vez chegado a casa, o pai perdeu-se em contemplações e desígnios decorativos de aposento em aposento, deixando a tralha trazida, por vários dias, em modo pilha, na entrada, no corredor, na sala, na cozinha e nas escadas.

Seguir-se-ão mais viagens de cá para lá e de lá para outro lugar qualquer.

São as fluxibilidades dos nómadas digitais.

São tempos modernos e novas formas de viver.