Cardus Edição 122, junho 2023

Malisca



Alarvidades que se dizem


Depois da escola, passava pela loja para namorar a caixa do playmobil com que há muito andava a sonhar. Uma caixa pequena, com um boneco e respetivos adereços, que o seu imaginário já incluíra nas brincadeiras de todos os dias. 

Parado em frente à montra, deixava-se transportar para um mundo encantado e, naquele momento, tudo se transformava em magia. Guardava de cor todos os pormenores e imaginava o perna de pau metido numa grande zanguizarra, desenvolto e destemido, espada para cima, espada para baixo, em defesa do seu barco de piratas. 

Moedinha a moedinha, levou tempo a juntá-las até perfazer o montante exato para o poder comprar. E foi numa segunda-feira, logo após a poupança de mais uma semanada, que o tão esperado momento se acercou. Dinheiro contado, porta fora, lá foi ele a correr, empurrado pelo entusiasmo e desenvoltura dos seus nove anitos. Num ápice estava ao balcão da papelaria Divertilândia a fazer a sua compra, feliz, inteiro, com os olhos grandes a soltarem faíscas. 

Mas no momento da troca, quando espargiu as moedas no balcão, moedas na sua maioria de 5, 10 e 20 centavos e poucas de 1 escudo, e estendia a mão pronta a acolher o precioso bem, a empregada, cheia de convicção, afirmou: eh lá puto, andaste a pedir esmola!

Num segundo a magia esfumou-se. Envergonhado e indignado com tamanho ultraje, sentiu um nó a atrofiar-lhe o coração, que ficou do tamanho de uma azeitona, e não conseguiu açaimar uma lágrima que se despistou, em grande velocidade, pela face. 

O caminho de volta fê-lo devagar e cabisbaixo. Toda a alegria e alacridade se escaqueiraram em mil desencantos que perduraram durante muitos tempos: quando passava junto da loja; quando era preciso fazer alguma compra; quando um estranho lhe dirigia palavra; quando arrumava os dinheiros no mealheiro ou quando retirava o seu perna de pau do fundo do esconderijo.