Cardus Edição 121, maio 2023
Mãe e filha tinham engravidado ao mesmo tempo e as más-línguas afirmavam que o pai era o mesmo. Um galã de 19 anos, mecânico de automóveis, natural do Namibe e, ao que se sabe, oriundo de famílias descendentes dos primeiros colonos portugueses daquelas paragens.
Para remediar a situação, ainda que contra vontade dos pais dele, porque ela só tinha 14 anos, apressou-se o casamento dos dois.
Pouco tempo depois nasceram os bebés, duas meninas, tia e sobrinha, que cresceram como irmãs, uma vez que a avó criou também a neta.
Entretanto, o casal, apesar de não possuir qualquer tipo de instinto parental, em pouco mais de seis anos já somava cinco filhos.
Com uma vida mal-arrumada, o futuro daquela família pendurava-se num trapézio de linhas esboroadas.
Ele saía para o trabalho pela manhã e só regressava à noitinha, ela, sentada numa cadeira a baloiçar-se, lia livros policiais pelo correr do dia, como se não houvesse amanhã. Por muito que a avó tentasse implementar rotinas de organização na casa, a zaralhice venceu todas as teimas.
Quer um, quer outro, sentiam-se alheados a responsabilidades e não eram capazes de responder à satisfação das necessidades mais básicas da família. Numa época em que as máquinas domésticas ainda só existiam nos lares americanos, a roupa era lavada à mão e, a deles, boiava, muitas vezes, no tanque do quintal, até apodrecer. As refeições não tinham hora marcada e nem sempre eram confecionadas, sendo regularmente substituídas por pão e açúcar, em regime de self-service. Esta prática era o deleite das crianças que, em conjunto, a tornavam numa quizumba de cristais a saltitar pelo chão da casa toda.
Estas e outras imagens colaram-se, como tatuagens, ao coração de quem hoje revive esta história.
O chão besuntado de tudo, as paredes encardidas, os pratos e os tachos sujos, amontoados, num autêntico desafio ao equilíbrio, misturavam-se com outros apetrechos na bancada da cozinha. Nos quartos, os colchões exalavam os odores do mofo e do xixi das crianças, criando as condições propícias à proliferação dos percevejos que se viam a passear pelas almofadas.
Um dia, sem aviso nem conversa, o pai saiu de manhã à hora do costume e não voltou. Nunca mais ninguém o viu.
No meio da inocência, da algazarra e das brincadeiras, as crianças não se aperceberam que se tinha dado o início dos agrumes que iriam escurecer o caminho dos seus destinos.
Sem alternativas e sem meios de sustento, é a casa da avó o novo abrigo para a mãe e crianças, passando a viver todos juntos, até ao momento em que o magro salário da matriarca deixa de fazer face às despesas do dia a dia.
É inevitável uma nova mudança.
Estavam agora instalados numa casinha branca, pequena mas albergueira, camas a dividir por cada um, cozinha apetrechada com água canalizada e fogão a petróleo, casa de banho com chuveiro e retrete, o telhado, de duas águas, expunha a beleza das telhas e não deixava entrar a água da chuva. E, à tardinha, as crianças, enchiam-se de alegria, chegava a mãe com as caixas de comida que trazia do restaurante onde passara a trabalhar.
Tudo engendrado pela avó que lutava com a esperança de ver a filha e os netos a engrenar nas roldanas da vida.
Não conseguiu.
Poucos meses depois, já as crianças não iam à escola, brincavam sozinhas no descampado, em correrias sem rumo, dentro e fora de casa.
A comida deixou de chegar do restaurante porque a mãe fora despedida pela patroa, quando a descobriu amante do marido.
Muitos outros amantes se seguiram e os miúdos viviam agora por conta própria.
As vizinhas sacudiam-se em alvoroço, apregoando o desgoverno, umas com as outras.
Impunha-se uma resolução de emergência, mas a avó estava doente e desprovida de posses.
Tomaram-se decisões amargas. E as crianças foram separadas.
Uma ficou com a avó, outra foi adotada pela tia, que a rejeitou mais tarde. Os rapazes foram institucionalizados.
A mãe continuou por vielas tortas, e teve mais dois filhos.
Nunca mais se juntaram, não voltaram a encontrar-se.
E a vida continuou, sem um final feliz.