Cardus Edição 120, abril 2023
Tinha sete anos e espalhava alegria aos pinotes pela casa. Muito atenta e curiosa, dava conta de tudo quanto se passava à sua volta e, naquele dia, aguardava, cheia de expectativa, uma surpresa.
A casa era muito grande, como convinha, para albergar os hóspedes que eram o sustento da família. Estudantes, militares e trabalhadores, oriundos de diferentes paragens, compunham o séquito que por ali permaneceria até uma volta nova nas suas vidas.
Impaciente e inquieta, levou o tempo todo a azucrinar a mãe com um chorrilho de perguntas. Queria saber quem era, a que horas chegava, como se chamava, quanto tempo iria ficar...
Só ao final do dia é que a campainha repenicou e lá foi ela, a correr, abrir a porta. Ficou parada, muito admirada, à sua frente o novo hóspede! Não era um adulto, era um hóspede especial, só tinha 11 anos e vinha com a mãe que trazia o irmão bebé ao colo. Acabada a escola primária era altura de ir para o liceu obrigando-o a deixar a família.
Eufórica, tratou logo de entabular conversa. E tinha tantas histórias para contar! Como a da noite anterior, em que ninguém dormiu. Todos a lutar contra o exército de Quissondes que se dirigia para o galinheiro. A azáfama de se salvarem as galinhas, o que se conseguiu graças a alguém que se lembrou de fazer uma fogueira a barrar o caminho até elas. As formigas carnívoras a mudaram de direção e a seguiram para o mato que ficava para lá do muro da casa. E também lhe contou que costumava ir até ao rio, não muito longe dali, recolher girinos numa lata com água, cuidar deles até se tornarem sapos. Sem parar de o tentar cativar com as suas aventuras, entusiasmada, queria a todo o custo fazer um amigo. No alto da inocência dos seus poucos anos, não percebeu o desinteresse do rapaz. E, por isso, continuou. Foi buscar brinquedos, um a um, colocou-os à sua frente na esperança de o conquistar. Em vão!
Mesmo assim, porque as crianças são persistentes nos seus quereres, continuou no encalço da sua atenção e perguntou-lhe: gostas de encher balões?
A resposta não a fez esperar e, de forma ríspida, atirou: sim gosto, mas só balões de 9 meses.
A candura da idade não lhe permitiu perceber o contexto da afirmação, mas a brusquidão com que foi referida bastou para ela se afastar e guardá-la para sempre na memória.