Cardus Edição 119, março 2023

Malisca



Relações/Ralações


Tinha 23 anos e uma vontade inquieta de se tornar independente. Já com emprego, mas com um salário pouco colorido, sonhou com todos os lugares da Lisboa antiga, deslumbrado pela cidade, onde a história, a arquitetura e a tradição se entrelaçam e traçam painéis que se estendem do castelo até ao rio. Era aqui que queria viver.

Depois de alguma procura, sempre acompanhada de muita pressa, pouca paciência e uma grande dose de ansiedade, eis que o rés do chão de um pequeno edifício remodelado, no beco ao virar da rua alcandorada nas Escadinhas de S. Cristóvão, se escancara disponível, para seu regozijo e por valores que se aninham no seu bolso.

Encantado com o local e maravilhado com o prédio, os seus olhos enredaram-se na alegria do achado e prenderam-se no cor-de-rosa da fachada, nos pormenores das janelas e portas, na beleza do banco namoradeiro mesmo à porta da entrada e num sem fim de resquícios do passado que o puseram a levitar de emoção. Não tinha dúvidas nenhumas. Era aquele!

Dar a boa nova aos pais e marcar uma nova visita para se oficializar decisões, era obrigatório, afinal seriam eles os fiadores para o empréstimo bancário.

Chegado o dia, a mãe, mais eufórica que o próprio filho, mas mais astuta e experiente, em segundos conseguiu fisgar as minúcias e os detalhes escondidos nos 360⁰ à sua volta. O carro velho parado em frente à casa, com um jovem a dormir lá dentro completava o cenário composto por três rapazes desdentados que se dividiam pelo espaço a meias com sacos, papéis, comida e lixo, mesmo ao lado do prédio, debaixo do telheiro dos antigos tanques de lavar roupa comunitários.

Assim que entrou no apartamento, o cheiro a humidade agitou-lhe as narinas. Enquanto o pai olhava para um e outro recanto, o filho ia enumerando todas as mais valias e vantagens do exíguo T1, agendando com ele o dia e a hora para, em conjunto, colocarem prateleira aqui, prateleira ali, entre outros afazeres!   

A meio da visita, a mãe, intranquila com as constatações que contrariavam as maravilhas até ali enunciadas, passou as mãos pela parede e chamou:

olha filho, estás a ver as minhas mãos todas manchadas de branco? Isto é humidade, a casa não apanha sol, não tarda estas paredes vão ficar pretas, cheias de bolor… é um rés-do-chão… para além disto, não podes estender a roupa porque fica à mão de quem passa, tens a janela do vizinho da frente mesmo em cima da tua… mal podes abrir janelas…e ….

ainda não tinha acabado a sua dissertação quando foi interrompida de forma brusca e determinada:

és tão negativa, mãe! És sempre a mesma coisa! Guarda as tuas observações para ti!!!! Não te perguntei nada!! Que chatice! És uma pessoa horrível!

Tarde estragada e visita terminada, cada um seguiu caminho recolhido em si mesmo num silêncio perturbador.

Passado pouco tempo é efetuada a compra, e é para lá que se muda com todos os sonhos a emoldurar o futuro.

Cerca de um ano depois, numa noite cinzenta e sem estrelas, o telefone tocou. Já era tarde. E contou: estava de costas de volta do fogão, a janela aberta para arejar a casa, quando de repente um ladrão, de um salto lhe entra em casa e lhe rouba a mala, os documentos e o computador que momentos antes tinha colocado em cima da mesa depois de chegar do trabalho. Só o conseguiu ver de esguelha!

Veio a saber mais tarde, pelas complicações que foram aparecendo, que também lhe roubou a identidade.

Não conseguia entrar em casa, deixou a confeção do jantar a meio.

 Estava de volta à casa dos pais.