Cardus Edição 117, janeiro 2023
O pai biológico nunca o conheceu. O pai adotivo morreu quando tinha pouco mais de quatro anos, e, desde aí, a sua vida foi igual à de tantas crianças que se acharam em casas com paredes de papel. À medida que ia crescendo, dava-se conta das insuficiências que lhe calhavam no dia a dia. A mais marcante foi na escola primária, quando se apercebeu que as suas histórias não incluíam as figuras costumeiras do pai, dos avós, dos primos ou dos tios, porque não os tinha. Sentiu-se pobre, com o coração empapuçado de tristeza e um nó amargo dentro do peito, e chorou! Não queria ser diferente dos outros meninos. Não queria que fosse a mãe a assinar os recados nos cadernos. Queria ter um pai que a fosse buscar ou levar de mão dada. Queria ter um pai para a levar a passear de carro, e também queria ir ao ballet, à música, à natação ou ao ténis como outros meninos. Em vez disso ia pelo passeio, sozinha, parando a meio do caminho no parque onde os baloiços e os escorregas lhe devolviam por algumas horas a alegria de ser criança. À tarde, os tempos livres passava-os na cozinha a depenar galinhas, a fazer rissóis, bolos ou a aprender costura.
Cedo se fez mulher, aos treze anos já sabia cozinhar e tratar da lida da casa.
Aos dezasseis interrompeu os estudos para poder trabalhar. O fraco rendimento da progenitora não saldava as despesas da casa.
Como qualquer jovem, tinha o coração cheio de sonhos, acreditando num futuro cor-de-rosa. Estava determinada a construir uma família! Uma família como as que conhecia dos filmes: todos unidos, a transbordar de amor uns pelos outros, amigos para sempre, nos bons e maus momentos, mão estendida e abraços reconfortantes e a gostar de gostar dos outros.
Os anos passaram. Casou. Teve filhos. Deu-lhes todo o amor que tinha. Desenhou caminhos de união. Inverteu direções para promover encontros. Conferenciou. Gritou. Sacudiu. Esperneou.
Com um grande desgosto, não conseguiu construir uma família como a que idealizou nos filmes.
E, só percebeu o erro e se deixou apaziguar no dia em que um dos filhos, depois de a ver chorar por mais uma tentativa de reencontros falhada, dá um murro na mesa e diz:
que chatice!
Estás a chorar porquê?
Quem quer essa união és tu!
Nós nunca o quisemos!