Cardus Edição 128, dezembro 2023

FILOSOFALANDO

José Alves Jana
Filósofo

Estátua de Platão na Academia de Atenas



7. Platão



Platão (427 a.C. – 347 a.C.), discípulo de Sócrates, sentiu como uma enorme injustiça a condenação do seu mestre à morte. Por isso fez dele a personagem principal dos seus textos, embora cada vez mais a defender as ideias do próprio Platão. Quais? Centremo-nos nas principais.

Sócrates descobriu para nós o conceito, abstraído a partir da série de coisas com o mesmo nome. Platão centrou-se na ideia dessas coisas e considerou que a ideia é que é a verdadeira realidade, enquanto as coisas sensíveis são apenas cópias imperfeitas da ideia. Para se compreender melhor, pensemos na “ideia” de uma peça de roupa criada por um designer de moda: a ideia é que é a “verdadeira” obra, enquanto as peças produzidas a partir desse modelo contêm pequenos defeitos e, quando usadas, degradam-se e acabam no lixo.

Os gregos estavam a desenvolver a matemática, em especial a geometria. Ora verdadeiro círculo ou o verdadeiro triângulo é a ideia universal e eterna, racional e imaterial, de círculo ou triângulo. Uma coisa qualquer, circular ou triangular, em breve estará degradada. Por isso, Platão levou a sério a sua Teoria das Ideias: a verdadeira realidade são as ideias universais, abstractas, racionais e eternas, ao contrário das coisas concretas, materiais e perecíveis.

O verdadeiro ser humano não é o corpo material, sensível, mortal que vemos, mas a alma imortal, racional e eterna. Agora vive prisioneira do corpo… até dele se libertar pela morte.

Ou seja, há dois mundos (dualismo ontológico), o verdadeiro mundo, que é racional, eterno, imutável, o mundo das ideias, e um mundo aparente, material, sensível, degradável, ilusório. Por isso, o verdadeiro conhecimento, não é das coisas sensíveis, mas o conhecimento racional do mundo das ideias. O racional é real e o real é racional. Recordemos o que nos dizia Parménides: “Pensar e ser é o mesmo”.

Então, quem deve governar a cidade? Não os que dão mostras de falsos saberes (veja-se o que se passou com Sócrates), mas aquele que conhece a verdadeira realidade, isto é, aquele que se formou no verdadeiro saber, isto é, o chamado filósofo. (Como é que Atenas matou o verdadeiro sábio?!)

A partir daqui, Platão tirou as devidas consequências: criou uma “universidade” para formar os interessados no verdadeiro saber que assim saíam das trevas da caverna para a luz do conhecimento e desse modo se preparavam para uma acção inteligente na cidade. Esta escola, a Academia, ficou a funcionar durante mil anos (384 a. C. – 520) e assim formou a elite do mundo mediterrânico de acordo com as ideias de Platão. (Quem olhar bem para a “doutrina” cristã depressa encontra nela as ideias de Platão, agora sob forma religiosa.)

Platão foi um filósofo imenso, que não cabe neste curto espaço. Mas o pouco que fica registado permite compreender muito do que foi e será a civilização ocidental.