Cardus Edição 127, novembro 2023

FILOSOFALANDO

José Alves Jana
Filósofo

Estátua de Sócrates na Academia de Atenas, Grécia



6. Sócrates



Perguntado “Qual é o homem mais sábio?”, o oráculo de Delfos respondeu que era Sócrates. “Quem? Eu?!”, interrogou-se Sócrates: “Eu nada sei”. Intrigado, começou a interrogar os que eram considerados sábios. E que viu ele? Que era suposto saberem, mas não sabiam. Eram falsos sábios. Daí a conclusão socrática: “Só sei que nada sei, mas mesmo assim sei mais que esses que nem isso sabem”. Esta é a história contada em poucas palavras. Mas o mais profundo é o que nela se joga.

Por um lado, a filosofia abandona o estudo da natureza e ocupa-se do que é e do que vale o saber. Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.), na sua investigação sobre o que os outros sabiam, fazia-lhes perguntas, submetia a exame as suas respostas, contra-argumentava e sempre via que eles acabavam por se contradizer, por não saberem mais o que dizer quando viam que tinham caído (digo bem: caído) uma e outra vez em contradição. Portanto, pensar bem é pensar sem se contradizer. Mas não só. Pensar bem é dizer das coisas o que elas são. Por exemplo (que não é de Sócrates): o que é uma cadeira? “Essa é fácil, é uma coisa que serve para a gente se sentar.” Não, isso pode ser uma pedra, um banco, um sofá, um muro… Pensar bem exige chegar a dizer com rigor o que uma coisa é. E isso faz-se olhando para todas as coisas do mesmo nome e procurando nelas – em todas! – uma qualidade “única” que as faz serem aquilo que são e as distingue daquilo que não são. Este processo tem o nome de abstração, ou seja, tirar ou abstrair todas as características que não são comuns e ficar só e apenas com aquela que as define como aquilo que são, ou seja, a sua essência (do latim: esse = ser). Sócrates está a construir a gramática do novo modo de pensar. E, se repararmos, vemos que esta é a gramática de todo o pensamento científico, que sempre começa pela definição das coisas que estamos a querer conhecer. Mas, atenção, ainda faltam dois mil anos, números redondos, para se chegar ao nascimento do que hoje dizemos ser o conhecimento científico. Não foi nada fácil. Mas a gramática ficou lançada.

Sócrates é associado ao lema “Conhece-te a ti mesmo”. Não é psicologia, mas sim “examina o modo como pensas e vê se vives de acordo com o que pensas”.

Os gregos estão, nesse tempo, a fazer uma profunda revolução: no modo de pensar, mas também no consequente modo de ser, de discutir, de fazer política… de viver. Os cidadãos de Atenas não gostaram da brincadeira. Por isso levaram Sócrates a tribunal, acusando-o de corromper os jovens, e condenaram-no à morte!... por impiedade.

Os amigos ofereceram a Sócrates a possibilidade de fuga, mas ele sujeitou-se à sentença: um homem só é homem de verdade enquanto cidadão respeitador da lei da sua cidade. E bebeu pelas próprias mãos a taça de cicuta, o veneno que o iria matar. Foi o primeiro grande mártir da filosofia. E ensinou-nos que pensar e ser consequente pode sair muito caro.