Cardus Edição 126, outubro 2023
Contemporâneo de Heraclito, Parménides (530 a.C. - 460 a.C.) tem uma filosofia muito diferente. O pouco que dele chegou até nós diz-nos que pensa sobretudo o que permanece.
A sua obra apresenta-se como uma revelação da “deusa”, o que parece apontar para voltarmos a um pensamento de cima para baixo. E o que diz a deusa? Duas coisas que vão marcar todo o pensamento ocidental posterior.
Primeira: “O ser é, o não ser não é”. Simples: o que é… só pode ser; o que não é… não pode ser; ser e não ser não pode ser. Do não ser nada pode surgir, porque não é. É a lógica do “terceiro excluído”, ser ou não ser, não há terceira possibilidade. Aliás, nem se pode pensar que é… algo que não é. Seria uma contradição. Por um lado, estamos aqui numa análise à própria linguagem, não estamos ocupados com a observação das coisas do mundo, da realidade. Mas, olhando bem, podemos descortinar aqui a lógica dos informáticos de hoje: zero ou um. É a lógica disjuntiva.
A maior parte do poema de Parménides consiste na demonstração lógica, pela deusa, dessa evidência: o ser é infinito e ilimitado, pois não pode ser limitado por aquilo que não é. Se não é, não pode ser limite. Certo? Isto pode parecer muito abstracto, e é! Mas os gregos desse tempo precisaram de definir a gramática, que ainda não existia, do novo modo de pensar que eles próprios ainda ensaiavam. Lembremos que no pensamento mítico eu posso ser aquele papagaio que está em cima daquela árvore e não há nisso contradição alguma: a lógica aí é outra – por isso os povos de pensamento mítico se admiram da nossa admiração. Foram os gregos que nos ensinaram a pensar de outro modo, o nosso modo.
Mas a deusa diz ainda uma segunda coisa: “Pensar e ser é o mesmo”. Só se tem acesso ao que é através do pensar. Dito de outro modo: em última análise, não se conhece através da observação do mundo, pois assim apenas se obtém aparência e ilusão, mas através do pensar adequado, aquele que se liberta da ilusão dos sentidos, aquele que se submete a uma lógica rigorosa. O acesso à verdade faz-se pelo pensar rigoroso. Esta conclusão é talvez demasiado apressada (não há aqui espaço para mais), mas é o que durante dois mil e quinhentos anos vai prevalecer.
Heraclito sai derrotado na tarefa de definir a lógica do novo pensamento e Parménides vai marcar as regras do jogo. Este é um momento de afastamento decisivo por exemplo do pensamento oriental. Podemos também dar-nos conta de que não estamos perante uma física do mundo, mas perante algo que se procura para lá da física, uma metafísica – algo que verdadeiramente é e se encontra apenas no pensamento. Mas se ouvirmos à nossa volta, é assim que muita gente pensa: penso assim, logo é assim. “Pensar e ser é o mesmo”, já dizia a deusa a Parménides. E nós acreditámos.
Pensemos que a filosofia… talvez seja o trabalho de definição do modo de pensar.
P.S. – Somos todos muito shakespearianos: ser ou não ser, eis a questão.