Cardus Edição 125, setembro 2023

FILOSOFALANDO

José Alves Jana
Filósofo

Heráclito de Éfeso



4. Heraclito



“Ninguém pode banhar-se duas vezes no mesmo rio.” É provável que todos tenhamos ouvido esta frase famosa. Tem a sua origem em Heraclito, ou Heráclito, (500 a.C. - 450 a.C.) e quer dizer que à segunda vez o rio já é outro, porque são outras as suas águas, e aquele que quer banhar-se de novo também já não é o mesmo. “Tudo muda”, toda a realidade é um fluxo permanente, nada permanece o mesmo. Mas não se trata de um fluir caótico: para Heraclito, tudo flui entre dois pólos: noite e dia, quente e frio, bem e mal, e assim por diante.

Estamos ainda a pensar sobre a Natureza, mas agora de um ponto de vista mais geral, não a analisar fenómenos concretos.

Heraclito afirma: “Não é como julga a maior parte das gentes: por mais ensinada que seja, nunca sabe o que julga saber”. Estamos, assim, a distanciar-nos do pensamento comum, a pensar o próprio pensamento, a discutir o conhecimento. “A sabedoria consiste em uma simples coisa: conhecer o pensamento, que ordena tudo em toda a parte.” Os gregos afirmaram um novo modo de pensar, estão agora a tomar consciência dele. O que imediatamente parece não é o que de facto é; o que o comum das pessoas pensa não é a boa versão da realidade. Diz Heraclito: “A harmonia invisível é maior e melhor que a visível.” Por isso, o verdadeiro pensamento é aquele que traduz esse fluxo constante da realidade. Os olhos dão-nos aparência de estabilidade das coisas, mas “Os olhos e os ouvidos são más testemunhas para o homem, quando este tem alma de bárbaro.”

Mas não podemos esquecer que por este tempo, séc. VI a.C., na Índia nascia o budismo, que afirma que tudo é impermanência e que toda a aparência imediata é ilusão, e na China o taoismo de Lao Tze traz-nos o conceito de yin e yang, ou seja, o fluxo constante entre dois pólos que se opõem e se transformam um no outro. Mais tarde, estas tradições de pensamento irão fazer percursos diferentes e distanciar-se entre si e só, números redondos, no séc. XX entrarão em diálogo no Ocidente.

Esta ideia do fluxo constante proposta por Heraclito não vai conseguir afirmar-se de modo significativo, embora dois mil anos depois Camões nos venha dizer que “Todo o mundo é composto de mudança”. Só no séc. XIX, com Hegel, a historicidade do real virá a ser tida em boa conta. Importa reafirmar, para evitar confusões, que em Heraclito não há um fluxo linear no tempo, mas um devir entre dois pólos, mais próximo de um tempo circular.

Por isso, talvez valha a pena voltarmos ao princípio: “Descemos e não descemos às águas do mesmo rio, somos e não somos.” Heraclito a querer ensinar-nos a pensar para não nos deixarmos encantar por aquilo que os olhos nos dão a ver.