Cardus Edição 124, agosto 2023

FILOSOFALANDO

José Alves Jana
Filósofo




3. O Logos



Quando Tales de Mileto perguntou “De que é que tudo é feito?”, focou o seu e nosso olhar no mundo, neste mundo, e no seu funcionamento. Lembremos que o mundo das narrativas míticas era povoado por personagens mais ou menos imprevisíveis, dotadas de humores à imagem e semelhança dos humanos. Agora, temos uma natureza que funciona segundo leis próprias, que se trata, então, de descobrir. Os gregos perceberam, então, que o mundo tem duas formas de acontecer: algumas coisas acontecem por acaso e outras por necessidade, isto é, segundo uma lei interna ao mundo, segundo uma lógica própria da natureza. O mundo deixou de ser um caos imprevisível e por isso ameaçador, para se apresentar dotado de uma certa ordem. Esta ordem própria da natureza é o Logos ou garantida pelo Logos, a lógica própria da natureza.

Além disso, os gregos asseguraram a si mesmos que podiam perceber essa ordem porque eles próprios conheciam o mundo segundo o mesmo Logos. O Logos que preside à ordem da natureza é o mesmo que em nós conhece a natureza.

É claro que a Grécia tinha conhecimento, através do Egipto, de uma longa história de registo de observações dos astros feitas no Médio Oriente. Diz-se que Tales foi o primeiro a prever um eclipse do Sol e, desse modo, conseguiu que os seus ganhassem uma batalha, pois o inimigo assustou-se com a noite imprevista e os seus enfrentaram o fenómeno como natural. Isso permite-nos perceber o “novo” mundo que nascia: uma natureza que opera segundo leis que podem ser conhecidas e cujo conhecimento permite viver com mais segurança e poder sobre a vida.

Não é por acaso, sem dúvida, que esta nova concepção de natureza deu aos gregos um novo impulso científico. A astronomia e a anatomia, a medicina e a física, entre outras ciências, tiveram ganhos qualitativos de monta na Grécia antiga. O mundo deixou de ser plano sob a abóbada celeste (ou meia tigela na qual estavam fixos os astros) e tornou-se uma esfera no centro do Universo. Um notável avanço. Podemos dizer, hoje, jogando com várias linguagens: se Deus  criou o mundo, os gregos criaram a natureza. Ou a ideia de natureza.

É claro que as narrativas sobre os deuses continuaram a desempenhar um papel demasiado importante para ser esquecido. Mas, pouco a pouco, um novo conhecimento sobre o mundo ia ganhando força, e ao mesmo tempo ia-se renovando o problema do que é ser humano no mundo. Podemos dizer que este foi o primeiro grande passo para a secularização: passar a ver uma natureza autónoma, regida por leis próprias, que é possível conhecer e aproveitar em benefício da nossa vida colectiva. Foi o princípio de uma nova civilização.