Cardus Edição 123, julho 2023

FILOSOFALANDO

José Alves Jana
Filósofo



Tales de Mileto



2. O nascimento da Filosofia



Vem de há 2.500 anos, números redondos, a notícia do que foi reconhecido como o primeiro filósofo. Chamava-se Tales (624 a.C. - 546 a.C.), vivia em Mileto, cidade grega da Ásia menor, hoje Turquia, e era matemático (teorema de Tales), empresário, engenheiro, talvez astrónomo, enfim, um dos sete sábios da Grécia antiga. Sem dúvida beneficiou do conhecimento do Médio Oriente e do Egipto, mas fez algo de novo e revolucionário. O quê?

Perguntou: “De que é que tudo é feito?” e respondeu “De água” e justificou “Porque onde há água tudo medra e onde falta água tudo morre”.

O leitor desprevenido pensará: “Mas que parvoíce! Isso é que é revolucionário? Nem sequer é verdade…”. Mas, vendo melhor, há aqui algo de inovador e decisivo.

Lembremos. Antes, o modo de pensar era a criação de uma narrativa. Resolver um problema era contar uma história passada no princípio do mundo que se tornava a explicação e a norma de como agir. Exemplo talvez mais conhecido: a narrativa da criação do mundo na Bíblia. A narrativa mítica vinha de um passado distante, marcada com a autoridade sagrada que a tornava inquestionável, até porque não havia como controlar a sua verdade.

E agora? Um homem, Tales, perguntava; ele próprio respondia; e, como não tinha autoridade sagrada, justificava a sua afirmação. Um novo modo de pensar. Pensar por si, assumir-se como capaz de pensar. Ah, e assumir a justificação como forma de controlar o valor da sua afirmação. E justificava perante quem? Perante outros como ele. Era a inauguração de um “diálogo” horizontal entre seres humanos, não vertical dos deuses para os homens.

Além disso, muito importante: perguntava sobre “tudo”, todas as coisas, e procurou explicar as coisas por outra “coisa”: tratava-se de explicar o mundo por dentro do próprio mundo. Um bom observador vê aqui o princípio do que virá a ser a ciência. A resposta falhou? Sim, mas isso não é o mais importante. O que foi decisivo, sim, foi surgir um novo modo de pensar. Ora a filosofia começa por ser um novo modo de pensar. Revolucionário!

E depressa surgiram outros a dizer que o elemento de que tudo é formado não é a água, mas o indeterminado (Anaximandro), a névoa (Anaxímenes), o fogo (Heraclito), o átomo (Demócrito) ou terra, água, ar e fogo (Empédocles). Uma explosão de propostas. O saber era agora uma discussão permanente – sobre como é o mundo, sobre a natureza.

É claro que estamos aqui a simplificar, talvez demasiado, mas o espaço disponível não deixa outra opção. Havia já então um grande acervo de conhecimento acumulado, mas agora nascia a ciência: um saber universal sobre o mundo, apoiado na observação. Até hoje.